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Duas festas, uma ausência

Menos de dois meses separaram os dois principais eventos de tecnologia e inovação no setor financeiro do Brasil

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Menos de dois meses separaram os dois principais eventos de tecnologia e inovação no setor financeiro do Brasil. Na verdade, foram verdadeiras festas da diversa e intensa comunidade formada por bancos e empresas de tecnologia, dos mais variados matizes, portes e origens.

Curiosamente, todos compareceram, exceto os maiores bancos no segundo encontro. Fiquei me perguntando sobre as razões dessa ausência notada em apenas uma das duas ocasiões. Ambos realizados em São Paulo, o primeiro em agosto no icônico prédio da Bienal do Ibirapuera, a Febraban Tech 2022 e o segundo evento, o Fintouch 22, que foi realizado em setembro, no arrojado Um Rooftop.

No Febraban Tech, congresso e exposição de tecnologia das informações das instituições financeiras, é notável o peso e a longa tradição da federação dos bancos, além do interesse direto da grande indústria de tecnologia. O evento atraiu, somados os seus três dias, 25 mil visitantes e uma coleção de personalidades entre palestrantes, debatedores e altos executivos, além de numerosos estandes. Merecem destaque, entre os presentes, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central; Ban Ki-Moon, ex-secretário-geral da ONU; Paul Krugman, Nobel de Economia; além de praticamente todos os presidentes dos maiores bancos do país.

Já no Fintouch 22, evento promovido pela ABFintechs, a Associação Brasileira de Fintechs, circularam 600 visitantes e se apresentaram 80 palestrantes. Entre eles, por meio de uma saudação especialmente gravada para a abertura, novamente o presidente do Banco Central, Roberto Campos. Todo o encontro foi notavelmente vibrante e contou com 18 painéis, nos quais se reuniram representantes de órgãos governamentais, entidades de pesquisa, algumas delas estrangeiras, e atores de destaque do ecossistema de inovação e do mundo ESG. Naturalmente, a ocasião reuniu praticamente todos os fundadores das principais fintechs do País.

Para aqueles que desfrutaram do privilégio de circular entre os estandes e sentir a eletricidade no ar em várias palestras e vários debates dos dois eventos, o fato que não passou despercebido foi a ausência dos grandes bancos no Fintouch. Aliás, algo inesperado e até mesmo surpreendente. Afinal de contas, todo o planeta financeiro vive a era do rebundling.

O unbundling corresponde a uma primeira onda de transformação do setor financeiro, uma espécie de desagregação dos serviços antes oferecidos com exclusividade pelos bancos, que atuavam como one-stop-shop para os produtos financeiros. Esse movimento resultou especialmente do surgimento das fintechs focadas em serviços inovadores em meios de pagamento, conta corrente, investimentos e cartões, entre outros. Já o rebundling traçou um caminho de volta ao “tudo em um só lugar”, à medida que bancos incumbentes passaram a oferecer produtos e serviços adicionais, em boa parte graças a uma significativa onda de fusões e aquisições com empresas de tecnologia e startups.

Até a crise financeira global de 2008, a maioria dos usuários de serviços bancários movimentava suas contas em um ou dois bancos, no máximo. Atualmente, não é incomum que pessoas tenham até dez aplicativos financeiros em seus smartphones. Segundo o estudo Rebundling: The Next Stage of the Fintech Evolution, recentemente publicado pelo Banking Circle Group em parceria com a Finextra, o impacto das fintechs não provocou apenas a fragmentação dos serviços, lembrando que muitos sequer existiriam sem essas startups. O fato é que as fintechs passaram a abocanhar parte das receitas do setor. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, ainda de acordo com o relatório, elas capturam de 3 a 5% do total das receitas bancárias. Ao mesmo tempo, 40% dos clientes de varejo dos EUA usam serviços de fintechs para efetuar pagamentos. Na Europa Ocidental, a penetração é de 30%. Aqui não é diferente.

Testemunhamos nas últimas décadas uma verdadeira revolução do setor financeiro, particularmente intensificada em anos mais recentes no Brasil com a chegada do open finance e o crescimento do mercado de capitais. Nesse ponto, estamos pelo menos cinco anos à frente dos nossos vizinhos na América Latina. Vimos serviços bancários passar de pacotes oferecidos exclusivamente por bancos tradicionais para uma significativa dispersão de alternativas, com as fintechs preenchendo lacunas, tirando proveito de oportunidades e fornecendo soluções inovadoras.

Hoje, no entanto, estamos acompanhando um movimento de reagrupamento do mercado. E os bancos estão tomando medidas para fornecer a seus clientes uma ampla gama de soluções, só que desta vez em colaboração com fornecedores especialistas, e grande parte deles é de fintechs.

De volta às festas, a notável presença maciça das fintechs no Febraban Tech. Já no Fintouch, entre os 26 expositores, apenas cinco bancos de menor porte. Porém, acredito que todos eles, cada um em seu grau de maturidade, com visão de futuro clara e postura proativa para com o ecossistema de inovação brasileiro. Quem lá esteve percebeu a notável atmosfera de comunidade, o espírito colaborativo e o desejo de realizar bons negócios. Foi uma espécie de celebração nacional da inovação, do venture capital e do rebundling. Mas, voltei para casa sem entender a ausência dos grandes bancos.

*Claudio Cardoso é consultor de comunicação estratégica no Banco Alfa


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