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Ninguém descobre que precisa melhorar a comunicação quando sobe em um palco. Descobre muito antes.
Descobre numa segunda-feira de manhã, ao abrir o e-mail e encontrar um convite para apresentar um projeto à diretoria. Numa reunião em que terá poucos minutos para defender uma ideia que levou meses para construir. Numa negociação, numa conversa difícil com o time, ou naquele instante em que alguém olha e diz: “Agora é com você.”
Nesse momento, o corpo responde antes da cabeça. O estômago contrai, a respiração encurta, a boca seca. E uma voz interna começa a perguntar: e se eu travar? E se perceberem que estou nervoso? E se eu não parecer tão competente quanto esperam?
Quem trabalha com gente conhece bem esse cenário, mesmo que ele raramente apareça numa avaliação de desempenho.
A distância que o RH vê todos os dias
O curioso é que, na maioria das vezes, essa pessoa domina o assunto. Estudou, trabalhou, acumulou repertório. Talvez tenha sido chamada justamente por saber mais do que todos na sala. Mas existe uma distância entre ter algo relevante a dizer e conseguir acessar tudo isso quando os olhos se voltam para ela.
Pense na Letícia, uma gerente de RH que conversa com naturalidade com os colegas, mas paralisa quando o holofote se volta para ela. Ou no Daniel, empreendedor que acredita no que construiu, mas some na hora do pitch: fica prolixo, atropela as palavras e sai frustrado por não ter dito o que precisava.
Os dois são personagens do meu livro, mas qualquer profissional de RH conhece alguém assim. É o analista técnico excelente que nunca é lembrado para a promoção. É a gestora que entrega resultado, mas não consegue engajar o time numa mudança. É o diretor que apresenta 40 slides e sai da reunião sem a decisão que precisava.
O custo dessa distância é alto e quase sempre invisível: promoções que não acontecem, ideias que morrem na reunião, líderes que não conseguem inspirar. Talento que existe, mas não aparece.
Mais técnica nem sempre é a resposta
Diante disso, a reação mais comum das empresas é oferecer um curso de oratória com dicas de postura, gestos e frases de impacto. A técnica importa, e muito. Mas, em mais de uma década preparando executivos, aprendi que ela sozinha raramente resolve.
Em 2015, eu estava no YouTube Space, em São Paulo, apenas testando o áudio e vídeo de uma transmissão. Resolvi brincar e apresentei o evento do Risadaria como se ele estivesse acontecendo. Não sabia que o diretor de conteúdo estava assistindo. Minutos depois, ele me convidou para criar um workshop para os criadores de conteúdo, e aquele teste virou seis anos de treinamentos.
O que ele viu não foi uma técnica aplicada naquele momento. Foi repertório aparecendo sem a interferência da necessidade de provar alguma coisa. Eu não sabia que estava sendo avaliado e, justamente por isso, não tentei controlar cada gesto.
Durante anos, vi profissionais tentarem construir confiança adicionando coisas: mais ensaio, mais controle, mais frases prontas. Muitas vezes, o caminho é o contrário. Comunicar melhor também significa retirar interferências: a necessidade de aprovação, o medo do julgamento, a tentativa de parecer inteligente e o personagem que entra em cena quando nos sentimos observados.
Isso tem implicações diretas para a liderança. Pesquisas sobre contágio emocional mostram que, ao nos comunicarmos, não transmitimos só palavras. Ritmo, voz, expressão e postura dão pistas sobre o nosso estado. Um líder tenso tende a gerar tensão; um líder seguro torna a conversa mais segura. O estado de quem fala também faz parte da mensagem.
O que o RH pode fazer
Se a comunicação é uma competência de liderança, ela merece o mesmo cuidado que damos a outras competências. Algumas ações práticas:
O comunicador que já existe
Ao longo dos anos, trabalhei com centenas de executivos, empreendedores e líderes. Pessoas com boas histórias e boas ideias que ainda não tinham encontrado a forma mais poderosa de expressá-las.
A lição que ficou é simples: o grande comunicador não é alguém que você precisa se tornar. É alguém que já existe dentro de você, esperando permissão para aparecer.
Para o RH, isso muda a pergunta. Em vez de “como transformar essa pessoa em um bom comunicador?”, passa a ser “o que está impedindo o comunicador que ela já é de aparecer?”. É uma pergunta mais humana e, na minha experiência, muito mais eficaz.
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