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Fazer mais, em menos tempo e com menos esforço. Nos acostumamos a ter essa como a grande promessa da digitalização do trabalho.
Só que existe um paradoxo crescendo dentro das empresas. Quanto mais ferramentas temos para organizar o trabalho, mais difícil parece ser encontrar tempo para, de fato, trabalhar.
Não é difícil reconhecer a cena. Uma plataforma para gestão, outra para comunicação, outra para projetos, outra para indicadores. E-mail, mensagens instantâneas, reuniões, notificações, alertas, dashboards. A cada nova ferramenta, surge também uma nova porta de entrada para uma demanda.
O problema não é a tecnologia. É quando ela deixa de organizar o trabalho e passa a organizar a atenção das pessoas.
Um levantamento da Flash mostra um sinal importante desse fenômeno: 61% dos profissionais de RH ouvidos afirmaram que lidar com múltiplas plataformas e softwares causa estresse e impacta negativamente sua saúde mental.
E o problema não termina no RH.
Dados de telemetria do Microsoft 365 mostram que, em média, profissionais são interrompidos a cada dois minutos por reuniões, e-mails ou chats. A própria Microsoft identificou que 48% dos funcionários e 52% dos líderes consideram seu trabalho caótico e fragmentado.
No Brasil, o cenário é ainda mais revelador: 72% da força de trabalho pesquisada pela Microsoft afirma não ter tempo ou energia suficientes para realizar seu trabalho.
Isso deveria nos fazer parar por alguns minutos. Ou, talvez, justamente tentar recuperar alguns minutos.
Porque existe uma diferença enorme entre trabalhar com tecnologia e trabalhar sob interrupção tecnológica.
Quando uma pessoa precisa interromper constantemente uma atividade para responder a outra, o que se perde não é apenas tempo – não era ele que estava sendo prometido?
Perde-se continuidade de raciocínio.
Uma decisão complexa não é uma tarefa que se retoma exatamente do ponto em que foi interrompida. Uma análise exige contexto. Uma conversa difícil exige escuta. Uma estratégia precisa de espaço para conectar informações que, isoladamente, parecem não ter relação.
A psicologia já conhece há décadas os chamados switching costs, ou seja, alternar repetidamente entre tarefas cobra um preço cognitivo e reduz a eficiência.
No Brasil, um estudo com 9.969 trabalhadores do ELSA-Brasil encontrou associação entre estresse relacionado ao trabalho e menor desempenho em testes de memória, fluência verbal e função executiva.
Isso importa porque empresas não contratam pessoas apenas para executar tarefas. Contratam pessoas para julgar, priorizar, resolver problemas, criar, negociar e tomar decisões.
Se o ambiente de trabalho fragmenta justamente as condições necessárias para essas atividades, podemos estar criando um paradoxo perigoso: investimos em tecnologia para aumentar a capacidade humana e, ao mesmo tempo, construímos uma rotina que reduz o espaço mental necessário para utilizá-la.
Essa distinção merece atenção.
Uma agenda cheia pode ser administrável quando existe prioridade, previsibilidade e espaço para concentração. O que desgasta é quando tudo parece urgente, qualquer canal pode interromper qualquer atividade e cada ferramenta passa a exigir uma resposta própria.
A OMS inclui entre os riscos psicossociais do trabalho justamente elementos como trabalho fragmentado, sobrecarga, pressão de tempo, falta de controle e baixa participação nas decisões.
Não basta perguntar se determinada tecnologia torna uma tarefa mais rápida. É preciso perguntar o que ela faz com o restante da jornada.
Uma automação pode economizar dez minutos de uma atividade e, simultaneamente, criar cinco novas notificações. Uma plataforma pode centralizar informações, mas também criar mais um ambiente que precisa ser monitorado. Uma ferramenta de colaboração pode aproximar equipes, mas também transformar qualquer intervalo em uma oportunidade para alguém solicitar alguma coisa.
Tecnologia não é neutra quando modifica o ritmo do trabalho.
Talvez seja hora de trocar uma pergunta bastante comum.
Em vez de perguntar apenas:
“Essa tecnologia aumenta nossa produtividade?”
sugiro perguntar:
“Que tipo de trabalho essa tecnologia está nos ajudando a construir?”
Um trabalho em que as pessoas conseguem se concentrar? Em que sabem o que é prioridade? Em que existe tempo para pensar antes de responder? Trabalho em que nem toda mensagem precisa ser respondida imediatamente?
Essa discussão não significa voltar para um mundo analógico. Muito menos rejeitar inovação.
Significa reconhecer que digitalização não é sinônimo de evolução.
Uma empresa pode ter sistemas modernos, inteligência artificial, automações e dashboards sofisticados e ainda assim oferecer uma experiência de trabalho desorganizada.
A tecnologia deveria diminuir a complexidade que as pessoas precisam administrar. Quando acontece o contrário, o problema já não está na ferramenta. Está no desenho do trabalho.
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| Atualizado em: 28/10/2026 11:30 | ||