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Crédito consignado para CLT amplia acesso, mas acende alerta para endividamento

Crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada amplia o acesso a juros menores, mas especialistas alertam para o risco de sobreposição de dívidas e superendividamento

O crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada permite que empregados do setor privado contratem empréstimos com parcelas descontadas diretamente da folha de pagamento. A modalidade busca ampliar o acesso ao crédito com juros potencialmente menores, já que o desconto automático reduz o risco de inadimplência para os bancos.

Essa possibilidade, porém, acende um alerta para o endividamento: 78% dos que contrataram a modalidade já tinham mais de 81% da renda comprometida com outras dívidas. Com parcelas que podem consumir até 35% do salário, o crédito mais barato pode se transformar em uma nova armadilha, colocando trabalhadores e empresas diante do desafio de combinar acesso ao crédito, tecnologia de análise e educação financeira.


Crédito consignado pode ajudar a reorganizar dívidas

“Esse dado mostra que existe um nível de endividamento elevado entre quem está acessando o produto, mas não significa necessariamente que foi o consignado que criou esse endividamento. Antes do Crédito do Trabalhador, o consignado privado era muito mais restrito e dependia de convênios entre instituições financeiras e empresas, normalmente grandes empresas. O novo modelo abriu essa possibilidade para uma parcela muito maior dos trabalhadores formais, inclusive pessoas que antes recorriam a cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal com taxas muito superiores”, considera Paulo Cirilo, CEO da Tafácil.

De acordo com ele, existem os dois movimentos. “Há quem esteja usando o consignado para substituir uma dívida mais cara, o que pode representar uma reorganização financeira importante, e há o risco de ele se tornar apenas mais uma obrigação quando essa substituição não acontece. Para mim, a discussão não deve ser simplesmente se o trabalhador está tomando crédito, mas se aquele novo crédito está melhorando ou piorando a estrutura da dívida que ele já possui. Crédito mais barato pode ser uma ferramenta muito positiva quando utilizado com esse objetivo”, diz Cirilo.

Para Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira, investidor e CEO da Plano Fintech, esse dado, isoladamente, não permite concluir se o trabalhador está substituindo uma dívida cara ou simplesmente adicionando uma nova obrigação ao orçamento.

“Mas ele acende um alerta importante: o consignado está chegando a uma parcela da população que já apresenta um nível elevado de comprometimento da renda. A diferença está no destino do recurso. Se o crédito é usado para quitar cartão, cheque especial ou empréstimos com juros maiores, com encerramento efetivo da dívida anterior, ele pode contribuir para reorganizar as finanças. O problema aparece quando a pessoa contrata o consignado, mantém os compromissos anteriores e passa a conviver com mais uma parcela. Nesse caso, houve redução do custo do crédito, mas não necessariamente redução do endividamento”, alerta Hiraki.


Tecnologia pode ajudar a avaliar capacidade de pagamento

Hiraki destaca que o fato de existir espaço para descontar uma parcela em folha não significa que aquele valor seja sustentável dentro do orçamento familiar.

“A análise deveria considerar a renda efetivamente disponível depois das despesas essenciais, o volume de outros compromissos financeiros e o comportamento daquele orçamento ao longo do tempo”, diz, ao afirmar que a tecnologia pode contribuir muito ao cruzar dados de renda, endividamento e histórico de pagamentos para estimar o impacto real da nova parcela sobre a vida financeira do trabalhador.

“Existe um risco importante quando o consignado continua sendo pago normalmente pela folha, mas, para suportar esse desconto, a pessoa passa a atrasar aluguel, cartão, contas básicas ou outras obrigações. O contrato permanece adimplente, enquanto o restante da vida financeira começa a se deteriorar. É essa distorção que precisa ser observada”, reforça Hiraki.

Cirilo comenta que entramos agora em uma fase de amadurecimento do produto.

“O primeiro momento foi muito marcado pela ampliação do acesso. Houve uma demanda reprimida enorme de trabalhadores que não tinham acesso ao antigo consignado privado e passaram a encontrar uma modalidade de crédito mais barata. Agora precisamos amadurecer também a forma como esse crédito é concedido e utilizado”, diz, ao lembrar que isso passa por instituições cada vez mais responsáveis na análise, pelo uso de tecnologia para oferecer condições adequadas ao perfil de cada pessoa, mas também por uma evolução muito forte na educação para o crédito consciente.

“Eu costumo dizer que crédito barato pode ser um grande motor de impulsionamento quando usado corretamente. Pode substituir uma dívida cara, resolver uma necessidade pontual ou até permitir que a pessoa organize melhor sua vida financeira. O problema começa quando ele passa a funcionar como complemento permanente de renda. Então, acredito que o próximo estágio desse mercado passa por unir acesso, tecnologia, educação financeira e responsabilidade. Não precisamos reduzir o acesso ao crédito; precisamos fazer com que cada vez mais pessoas tenham acesso ao crédito certo, no valor certo e dentro da sua capacidade de pagamento”, comenta.


Crédito barato não é sinônimo de crédito adequado

Hiraki avalia que é importante separar crédito barato de crédito adequado.

“Uma taxa menor, por si só, não transforma uma contratação em uma boa decisão financeira. O consignado tende a fazer mais sentido quando existe uma finalidade clara, especialmente a substituição de dívidas mais caras, com redução do custo total e das parcelas”, diz.

“Também considero importante que o trabalhador consiga visualizar de forma simples quanto pagará ao final, qual será a economia em relação à dívida anterior e quanto da renda permanecerá disponível depois da contratação. Quando a operação tiver como objetivo reorganizar dívidas, mecanismos que estimulem ou garantam a quitação da obrigação anterior também podem reduzir o risco de sobreposição de débitos. No fim, o sucesso desse crédito não deveria ser medido apenas pela taxa oferecida ou pelo volume contratado, mas pela capacidade de melhorar, de fato, o orçamento de quem tomou o empréstimo”, complementa.


Educação financeira é apontada como caminho para evitar superendividamento

Para Alexandre Miserani, professor de Economia do Centro Universitário Arnaldo Janssen, de Belo Horizonte, seria interessante que o programa do consignado CLT fosse atrelado aos programas governamentais de reorganização de dívidas para ficar mais barato.

“Além disso, as próprias instituições financeiras deveriam proporcionar algum material, algum incentivo para reorganização da própria gestão financeira da pessoa. Isso ajudaria muito no sentido não só educacional, mas de consciência, de planejamento, orçamento e etc., para que as famílias não superendividem”, diz.

“A reorganização financeira, através do ensinamento de como planejar, como orçar, como a família entender o custo do dinheiro e o impacto que se tem na vida cotidiana deles, ajudaria sobremaneira a não caírem nessa armadilha do superendividamento”, finaliza o professor.

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Atualizado em: 11/09/2026 09:50