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Mitigar a imprevisibilidade corporativa exige repensar modelos tradicionais de gestão. Embora tentar controlar variáveis pareça seguro, líderes eficazes agora focam em descentralização e contexto estratégico. Dessa maneira, as empresas aceleram a tomada de decisão, otimizam a carga cognitiva das equipes e constroem culturas altamente adaptáveis para os desafios de 2026.
A arquitetura da adaptação
Durante décadas, organizações foram desenhadas para operar em um ambiente relativamente estável. O planejamento anual orientava prioridades, estruturas hierárquicas concentravam decisões. A liderança era, em grande medida, avaliada pela capacidade de controlar variáveis e entregar previsibilidade. Essa lógica fez sentido por muito tempo. Hoje, porém, tornou-se insuficiente.
Segundo dados apresentados pela Contagious durante o Cannes Lions 2026, 86% dos líderes de marketing consideram que o ambiente de negócios está significativamente mais imprevisível do que há apenas três anos. Embora a pesquisa tenha sido realizada com executivos de marketing, o fenômeno transcende essa área. A volatilidade deixou de ser um desafio setorial para se tornar uma característica permanente das organizações.
Não se trata apenas da aceleração da inteligência artificial, das tensões geopolíticas, das mudanças econômicas ou das transformações no comportamento dos consumidores. Trata-se da convergência de todos esses fatores, produzindo um ambiente em que relações de causa e efeito se tornam menos evidentes, previsões envelhecem rapidamente e decisões precisam ser revistas continuamente.
Em uma coluna anterior, ao abordar o fim da liderança heroica, defendi que organizações complexas já não podem depender da figura de quem concentra todas as respostas. A velocidade das mudanças tornou impossível que uma única pessoa detenha informações suficientes para decidir sobre todas as situações relevantes. A imprevisibilidade amplia ainda mais essa constatação e o desafio passa a ser construir organizações capazes de aprender mais rapidamente.
Essa mudança exige uma revisão profunda do papel da liderança. Em vez de controlar todas as decisões, torna-se mais importante criar as condições para que boas decisões aconteçam em todos os níveis da organização.
Um dos conceitos apresentados pela Contagious foi a Auftragstaktik, doutrina militar que o exército prussiano desenvolveu no século XIX e que o general Stanley McChrystal posteriormente retomou. Seu princípio é simples: em ambientes altamente dinâmicos, ordens detalhadas perdem valor rapidamente porque a realidade muda antes que se execute o plano.
Em vez de prescrever cada passo, compartilha-se contexto, intenção estratégica e objetivo final. Quem está mais próximo da situação concreta toma as decisões, reduzindo o tempo de resposta e ampliando a capacidade de adaptação.
Instruções geram dependência. É a leitura do contexto que gera discernimento e guia melhores movimentos. Esse modelo pressupõe autonomia, mas a autonomia não se estabelece apenas pela estrutura organizacional. Ela depende de um ambiente onde as pessoas possam interpretar informações, fazer perguntas, assumir responsabilidade e aprender com os erros.
É justamente nesse ponto que a segurança psicológica, tema que venho discutindo em diferentes artigos, deixa de ser apenas um atributo da cultura organizacional para assumir um papel estratégico. Organizações que aprendem mais rapidamente também se adaptam mais rapidamente.
Outro aspecto que chamou atenção foi a defesa das analogias como ferramenta para resolver problemas complexos. Existe uma tendência natural de procurar respostas dentro do próprio segmento observando concorrentes ou replicando práticas já conhecidas. Entretanto, o mesmo repertório que originou desafios inéditos raramente os resolve.
Pesquisas clássicas da psicologia cognitiva, como o Problema da Radiação de Duncker, mostram que a exposição a situações análogas aumenta significativamente a capacidade de resolver problemas complexos. A analogia amplia repertórios, ajuda a identificar estruturas comuns entre problemas aparentemente distintos e favorece soluções mais criativas.
Na Psicologia, especialmente na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), outro recurso semelhante ocupa papel central: a metáfora. Mais do que uma figura de linguagem, ela permite reorganizar a forma como compreendemos uma experiência, tornando visíveis aspectos que uma explicação exclusivamente racional nem sempre alcança.
Seja na clínica ou nas organizações, ampliar repertórios por meio de analogias e metáforas significa ampliar também a capacidade de compreender problemas complexos e construir novas possibilidades de ação.
Essa perspectiva também reforça uma reflexão que desenvolvi recentemente ao analisar as discussões de Cannes Lions 2026. Argumentei que o desafio das empresas deixou de ser administrar competências isoladas para construir sistemas capazes de integrar criatividade, tecnologia, dados, cultura e experiência do cliente. A mesma lógica vale para a liderança. Quanto maior a complexidade, menor a probabilidade de que uma única pessoa ou área concentre as melhores respostas.
Também escrevi recentemente sobre o custo emocional da inteligência artificial nas organizações. Embora boa parte dos debates esteja concentrada na produtividade, pesquisas mostram que a prontidão humana para lidar com essas transformações evolui em ritmo inferior ao da tecnologia.
A imprevisibilidade intensifica esse cenário. Mudanças constantes, excesso de informação e decisões cada vez mais ambíguas elevam a carga cognitiva das equipes e exigem uma liderança capaz de oferecer clareza, direção e critérios.
Durante muito tempo acreditou-se que liderar significava reduzir incertezas. Hoje,vemos que a principal responsabilidade da liderança é aumentar a capacidade da organização de perceber o cenário, mergulhar nas incertezas e, com mais clareza e a partir de um olhar estruturado e sistêmico, responder habilmente a elas.
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| Atualizado em: 07/07/2026 10:19 | ||