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Crédito para MEIs tem juros mais baratos; veja o que pode impedir a aprovação

Linhas de crédito acessíveis aliadas à capacitação obrigatória - como as do Banco do Povo - ajudam microempreendedores a superar gargalos financeiros e a expandir e estruturar o crescimento sustentável

Há dez anos, a rotina de Ana Lúcia de Almeida, que é microempreendedora individual (MEI), e de seu marido, é dedicada às entregas de castanha de caju em casas de produtos naturais e feiras por toda a cidade de São Paulo e o interior paulista. Moradores da Zona Sul, o casal comanda a Castanha Cearense, trazendo quinzenalmente o produto direto de Fortaleza.

E embora já tenham uma clientela fiel e equipamentos como seladoras e máquinas a vácuo, Ana Lúcia conta que o desejo de ver o negócio crescer esbarrava na falta de capital de giro para comprar em maior volume e investir em mais maquinário. A saída veio há pouco tempo por meio de linhas de microcrédito do Banco do Povo Paulista (BPP), que concederam um empréstimo de R$ 21 mil em 30 parcelas de cerca de R$ 760.

"Nunca tentei buscar (crédito) em bancos tradicionais porque tinha medo dos juros."

Ao saber da possibilidade, o casal foi pessoalmente ao Banco do Povo, onde recebeu orientação. Antes de dar entrada no pedido, seria necessário concluir um curso obrigatório de 30 horas focado em gestão financeira. Entre a capacitação, entrega de documentos, análise do perfil e a transferência do montante para a sua conta, Ana Lúcia diz ter esperado menos de dois meses.

A expectativa do casal é, a partir disso, negociar preços melhores com o fornecedor para crescer entre 5% e 10% no faturamento. A rotina de trabalho, segundo ela, segue a mesma: sempre que recebem uma nova remessa de castanhas, o casal conta com a ajuda de filhos e netos numa espécia de mutirão para embalar tudo a vácuo, etapa fundamental para garantir a qualidade e a validade dos produtos antes de dar início à distribuição.

Além do acesso ao microcrédito, a empresário diz que a capacitação também refletiu em ganhos operacionais e estratégicos que foram importantes para a organização do negócio. "O curso nos trouxe mais foco e responsabilidade", acredita.

Os bastidores da análise

A história de Ana Lúcia reflete um percurso que nem todos os MEIs que solicitam um microcrédito conseguem concluir. Segundo dados de acompanhamento da liberação de recursos do Banco do Povo na capital, a negativação do nome (restrição no Serasa ou Cadin) continua sendo o entrave mais comum nesse processo.

De acordo com Rodrigo Goulart, secretário municipal de desenvolvimento econômico e trabalho de São Paulo, há outros dois motivos de reprovação técnica que costumam surgir com frequência. Um deles é a incapacidade de pagamento, ou seja, o comprometimento de renda, em que o agente de crédito avalia a média mensal de receitas e despesas da empresa e estabelece um percentual máximo desse saldo para amortizar a parcela.

Segunda o secretário, muitos solicitantes pedem valores acima de sua capacidade operacional imediata. "A orientação do programa é que esses empreendedores busquem financiamentos menores no início para construir histórico de crédito e capacidade financeira."

Outro ponto de recusas decorre das pendências com a Certidão Negativa de Débitos (CND) por restrições no CADIN Estadual, e com o Certificado de Regularidade do FGTS (CRF). No caso da CRF, Goulart diz que a recusa costuma ocorrer simplesmente porque muitos MEIs não cadastraram seu CNPJ junto à Caixa Econômica Federal — um processo burocrático simples de regularização, mas que trava a liberação do dinheiro.

Contrariando a ideia de que as mulheres ainda esbarram em barreiras invisíveis para conseguirem crédito, Goulart indica que no que diz respeito ao perfil dos tomadores de crédito, os dados da operação inicial mostram que não há diferença entre gêneros nas taxas de reprovação, e que o rigor das análises financeiras aplica-se igualmente a homens e mulheres.

"Nas contratações recentes viabilizadas pela parceria na Capital, o balanço inicial registra a aprovação das propostas de duas empreendedoras mulheres (incluindo Ana Lúcia) e um empreendedor homem."

Segundo a pesquisa mais recente realizada pela Serasa em parceria com a Opinion Box, 47% das entrevistadas apontam o acesso ao crédito como o maior desafio financeiro enfrentado atualmente. O gargalo se consolida em um histórico de recusas frequentes: levantamentos anteriores do órgão indicavam que mais de dois terços das brasileiras (68%) já tiveram um pedido de financiamento negado ao menos uma vez.

Além das taxas de juros mais atrativas, Ana Lúcia diz que a flexibilidade nas garantias exigidas pelo Banco do Povo foi um fator determinante, pois o modelo traz previsibilidade para seu negócio cresça sem comprometer a estabilidade financeira familiar.

Com a experiência adquirida, ela deixa um conselho prático para outros empresários: manter as contas em dia é a chave para abrir portas no mercado. "A dica que dou é manter o nome limpo para ter maior acesso ao crédito." De olho no futuro do negócio, Ana já planeja os próximos passos estratégicos para manter o giro de capital ativo: "Já penso em antecipar o pagamento das últimas parcelas para quitar a dívida e poder fazer novos empréstimos".

Para contratar

Direcionado a MEIs, MEs, informais e produtores rurais, o acesso ao capital produtivo do Banco do Povo pode variar de R$ 200 a R$ 21 mil, com juros reduzidos entre 0,35% e 0,80% ao mês com prazo de até 36 meses. Já o CredSampa (R$ 21 mil a R$ 150 mil) é voltado a empresas de menor/médio porte para expansão, com taxa fixa de 6% ao ano e previsão de injetar R$ 20 milhões na economia.

Goulart destaca que, para apoiar quem não possui bens para dar em garantia, a Prefeitura atua ao lado de instituições parceiras como garantidoras da operação, auxiliando com o letramento digital e a capacitação financeira presencial ou online (utilizando os coworkings públicos da Ade Sampa).

"A meta da Prefeitura é que cada R$ 1 investido no microcrédito orientado gere R$ 4 em retorno para a economia paulistana."

Quem deseja buscar informações sobre o processo podem dar início ao pedido via sistema digital do Banco do Povo ou pela Ade Sampa. Há também a opção de receber orientação presencial nos postos da Ade Sampa, seja para microcrédito, para formalização do negócio, realização dos cursos de gestão e indicação de avalista (exigido para quem ainda não possui CNPJ).