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Notícia

Produtividade e o medo sobre o futuro do trabalho

A cada nova tecnologia, dá-se um salto de produtividade que, ao mesmo tempo, destrói uma quantidade relevante de ocupações e negócios

O crescente medo de que a inteligência artificial reduza o número de vagas de emprego, ou mesmo as discussões sobre a necessidade de uma renda básica universal, geralmente têm origem em um pensamento comum de que a quantidade de trabalho a ser feita pelo humano irá diminuir de acordo com o aumento da produtividade.

Esse pensamento vem da noção de que a soma de tudo o que produzimos e consumimos tende a ser constante, como se as economias fossem estáticas. Mas a história comprova justamente o contrário.

O crescimento da economia se desenvolve por ondas: a cada nova tecnologia, dá-se um salto de produtividade que, ao mesmo tempo, cria uma série de novas oportunidades e destrói uma quantidade relevante de ocupações e negócios.

A agricultura, no início do século XX, empregava mais de 40% da força de trabalho nos EUA, segundo o Bureau of Labor Statistics. No século XXI, esse número não chegava a 2%. Já a eletricidade, que no fim do século XIX não chegava a 5% das fábricas, na década de 1930 fornecia 80% da energia necessária para a indústria manufatureira, que dobrou de produtividade a cada década seguinte.

Da mesma forma, espera-se que a inteligência artificial faça com os trabalhos intelectuais o que a eletricidade e a mecanização fizeram com os trabalhos manuais, reduzindo bruscamente a necessidade de “mão de obra”, ou cérebros humanos, para executar o mesmo trabalho. Porém, é aí que moram as narrativas mais alarmistas. Da mesma forma que muitos empregos deixaram de existir, outras necessidades crescerão.

Em análise recente, a Andreessen Horowitz, uma das gestoras de investimento mais relevantes do mundo, identificou que, nas teleconferências de resultados de empresas listadas, há cerca de oito menções à IA como ferramenta que potencializa o trabalho humano para cada menção dela como substituta de trabalhadores. E ainda comparou a IA ao fenômeno chamado Paradoxo de Jevons, segundo o qual o uso de um recurso, em geral, tende a aumentar quando o seu custo unitário cai.

Traçando um paralelo com a análise que o economista inglês William Stanley Jevons publicou em A Questão do Carvão de 1865, e substituindo esse recurso pela mão de obra humana: a tendência não é diminuir a necessidade do insumo quando aumentamos a eficiência do motor a combustão ou da máquina de processamento de informação, mas sim aumentar e popularizar o seu uso para finalidades que antes eram inviáveis.

Portanto, nem o apocalipse da IA marcado pela falta de empregos nem o sonho vendido pelos criadores da tecnologia GPT para alavancar a venda dos seus produtos estão próximos da realidade. Assim como nas ondas anteriores, as ocupações vão se transformar, novas vão surgir e outras se tornarão obsoletas.

Para as empresas no meio dessas ondas, restam duas opções: atravessar a rebentação, evitando serem levadas, ou surfar a onda e se fortalecer ainda mais, utilizando o salto de produtividade como diferencial competitivo, em vez de nadar contra a correnteza.