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Notícia

Desaprendizado executivo e os limites da experiência

O desaprendizado executivo é o maior desafio para líderes sêniores no mercado atual. À medida que acumulam experiência, executivos enfrentam a armadilha da competência e rotinas defensivas

O desaprendizado executivo é o maior desafio para líderes sêniores no mercado atual. À medida que acumulam experiência, executivos enfrentam a armadilha da competência e rotinas defensivas. Para evoluir, organizações devem incentivar o aprendizado de circuito duplo e criar ambientes com segurança psicológica real.

Por que líderes experientes param de aprender justamente quando mais precisam

O maior risco da experiência não é o excesso de confiança. É a perda gradual da capacidade de revisar as próprias crenças — e as organizações costumam acelerar essa perda sem perceber.

Esperamos que líderes experientes aprendam mais rápido. A evidência sugere algo mais desconfortável: à medida que acumulam experiência, muitos começam a aprender menos.

Não por arrogância. É mais discreto do que isso. O sucesso altera silenciosamente as condições em que o aprendizado acontece — e altera para pior.
A confusão começa quando tratamos experiência e aprendizado como sinônimos. Não são. Experiência melhora o desempenho: quem já resolveu um problema muitas vezes o resolve mais rápido, com menos erro e menor custo. Isso é real e valioso. Aprender é outra coisa — significa mudar o modo como se compreende um problema. E é exatamente essa capacidade que tende a se atrofiar conforme alguém sobe.

O mecanismo tem pouco de misterioso. Quanto mais alto o cargo, menos retorno honesto se recebe. As pessoas passam a antecipar o que o líder quer ouvir; as más notícias chegam filtradas, atrasadas ou não chegam. O ambiente também muda de natureza: decisões executivas produzem resposta lenta, ambígua e contaminada por dezenas de outras variáveis, o que torna difícil saber o que funcionou por mérito e o que funcionou por circunstância. E, por fim, a agenda se fecha — o tempo que antes se gastava aprendendo passa a ser gasto decidindo. O líder recebe menos informação corretiva justamente quando as consequências dos seus erros ficaram maiores.

Nada disso é falha de caráter. É o desenho do cargo operando como projetado.

A habilidade que protege o erro

Foi Chris Argyris quem descreveu o núcleo do problema, e a formulação continua desconfortável porque acerta em cheio. Diante de um resultado ruim, o instinto organizacional é ajustar a execução: corrigir o processo, apertar o controle, refinar a ferramenta. Argyris chamou isso de aprendizado de circuito simples — o single-loop learning. Ele funciona, e é o que a maior parte das organizações faz bem. Corrige-se o desvio sem tocar no modelo que produziu o desvio.

Aprendizado de circuito duplo e a incompetência habilidosa

O aprendizado de circuito duplo, o double-loop, exige outra coisa: questionar as premissas que sustentam o modelo. Não “o que fizemos de errado na execução?”, mas “por que definimos o problema desta forma?”, “que crença nossa tornou essa decisão a opção natural?”. É um movimento raro, e raro por um motivo específico: ele expõe quem pergunta.

Argyris observou que os profissionais mais bem preparados eram, com frequência, os piores nesse tipo de aprendizado. Não apesar do preparo — por causa dele. Pessoas que construíram uma carreira acertando raramente tiveram de conviver com o próprio fracasso, e por isso nunca desenvolveram o repertório de aprender com ele.

Quando o erro finalmente aparece, elas não o processam: elas o explicam. Deslocam a causa para o mercado, para o time, para a informação que faltava. O raciocínio é impecável, a defesa é sofisticada, e a premissa segue intacta.

Ele deu a isso um nome preciso e cruel: incompetência habilidosa. A capacidade de argumentar, que tornou aquela pessoa valiosa, passa a ser usada com maestria para não aprender.

Em torno disso se organizam as rotinas defensivas — comportamentos coletivos que protegem as pessoas do constrangimento e, no mesmo gesto, protegem o erro da correção. A conversa difícil que não acontece. O tema que todos comentam no corredor e ninguém coloca na pauta. A avaliação escrita em linguagem tão diplomática que não comunica nada. O detalhe que Argyris fazia questão de sublinhar é que essas rotinas são, elas próprias, indiscutíveis: a organização não discute por que não discute. Como resultado, o sistema fica protegido do único mecanismo capaz de melhorá-lo.

Aqui está o ponto que interessa a quem cuida de desenvolvimento de pessoas: as organizações formam líderes extremamente preparados para resolver problemas — e extremamente despreparados para revisar a forma como resolvem problemas.

Por que a experiência empurra na direção errada

James March explicou a lógica econômica por trás disso ao distinguir dois modos de operar. Explorar o que já se sabe — refinar, executar, otimizar o que funciona — dá retorno previsível, rápido e mensurável. Explorar o que ainda não se sabe — experimentar, variar, testar hipóteses novas — dá retorno incerto, distante e frequentemente negativo no curto prazo.

Diante dessa assimetria, indivíduos e organizações inclinam-se naturalmente para o primeiro. E, quanto melhor alguém se torna naquilo que já faz, mais atraente fica continuar fazendo — e menos atraente fica investir em algo em que ainda é ruim. March notou que esse ciclo se autoalimenta: o domínio de um método aumenta seu uso, e o uso aprofunda o domínio, o que torna a troca cada vez mais cara. É a armadilha da competência. A organização não escolhe parar de explorar; ela apenas descobre, a cada ciclo, que explorar compensa menos do que continuar.

No plano da carreira, isso se traduz num percurso muito reconhecível. O profissional é promovido por dominar um repertório. Passa a ser requisitado exatamente por esse repertório. Aprende a aplicá-lo em situações cada vez mais variadas. E, num certo ponto, deixa de perguntar se o repertório ainda é o adequado — porque ele funciona, e porque a organização inteira o procura justamente por causa dele.

Experiência não ensina sozinha

Há uma crença arraigada nos programas de desenvolvimento: a de que a experiência, por si, educa. Se fosse verdade, bastaria tempo de casa para produzir bons líderes — e todos sabemos que não basta.

Donald Schön ofereceu a correção. O que distingue o profissional que amadurece do que apenas repete não é a quantidade de situações vividas, mas a capacidade de refletir sobre elas. Ele descreveu dois movimentos. Um é a reflexão sobre a ação: olhar para trás, depois do fato, e examinar o que se pensou, não apenas o que se fez. O outro, mais raro e mais valioso, é a reflexão na ação: perceber, no meio do próprio movimento, que a situação não se comporta como o modelo previa — e ajustar a leitura enquanto ainda se está agindo.

A distinção tem uma consequência prática direta para o RH. Sem espaço estruturado de reflexão, a experiência não vira desenvolvimento: vira acúmulo. Anos de repetição consolidam a resposta que já se tinha, em vez de ampliá-la. E é por isso que a pergunta central de uma avaliação de liderança deveria mudar de foco. Não “quantos anos essa pessoa tem na função?”, mas “com que frequência ela revisou a forma como enxerga a função?”.

Quando o mapa deixa de descrever o território

O problema se agrava quando o contexto muda. Karl Weick mostrou que organizações não reagem à realidade diretamente: reagem à interpretação que constroem dela. Esse processo de dar sentido ao que acontece é contínuo e, na maior parte do tempo, invisível — só percebemos que estávamos interpretando quando a interpretação falha.

O que a pesquisa de Weick tem de mais incômodo é o que acontece quando o ambiente muda e o mapa não. Não ficamos sem mapa; ficamos com um mapa antigo que ainda parece confiável justamente porque funcionou muitas vezes. E há um agravante que ele documentou em situações extremas: sob pressão, as pessoas se recusam a largar as ferramentas que sempre carregaram, mesmo quando carregá-las se tornou o próprio risco. Aquilo que definiu a identidade profissional de alguém é a última coisa que essa pessoa abandona — e frequentemente o abandono só ocorre tarde demais.

Para quem cuida de sucessão, essa é uma consideração de primeira ordem. O líder mais experiente da casa é, muitas vezes, o que tem o mapa mais elaborado e o mais desatualizado ao mesmo tempo. O risco não está em possuir mapas: está em esquecer que eles envelhecem.

A cultura decide se o aprendizado é possível

Nada disso é resolvido no plano individual, e é aqui que a agenda se torna, propriamente, uma agenda de gestão de pessoas.

Edgar Schein identificou duas forças que competem sempre que alguém precisa mudar de fato. De um lado, a ansiedade de sobrevivência: a percepção de que não mudar traz consequências. De outro, a ansiedade de aprendizado: o receio de parecer incapaz, de perder status, de admitir que o que se dominava não serve mais. O aprendizado só acontece quando a primeira supera a segunda — e o erro corrente das organizações é buscar esse desequilíbrio aumentando a pressão. Schein argumentava o contrário: o caminho eficaz é reduzir a ansiedade de aprendizado, tornando psicologicamente viável não saber. Uma cultura em que admitir uma lacuna custa caro não é uma cultura exigente; é uma cultura que instalou um teto no próprio desenvolvimento.

É por isso que a pesquisa de Amy Edmondson sobre segurança psicológica não é um tema de clima organizacional, mas de capacidade de aprendizagem: onde discordar e admitir erro é arriscado, a informação corretiva não circula — e um sistema que não recebe informação corretiva não tem como se corrigir.

O que isso muda no desenvolvimento de líderes

Se o argumento se sustenta, boa parte do investimento em desenvolvimento está calibrada para a variável errada. Ensinamos líderes a resolver melhor os problemas que já sabem resolver — e quase nunca a examinar as premissas com que os definem. Medimos expertise acumulada, não capacidade de revisão. Promovemos quem domina um repertório, sem perguntar se essa pessoa demonstrou, alguma vez, a disposição de abandonar parte dele.

A consequência aparece no ponto mais caro da estrutura. Um líder que parou de revisar as próprias premissas continua produzindo resultados por um tempo considerável — até que o contexto se desloque. Quando isso acontece, o problema não é falta de preparo: é que o preparo disponível deixou de corresponder ao problema em questão. E como esse desalinhamento não aparece em nenhum indicador de desempenho, ele só se torna visível quando já custou caro.

Uma reflexão sobre a maturidade da liderança

Talvez seja hora de aceitar uma ideia incômoda: o desenvolvimento de um líder não se completa quando ele aprende a decidir bem. Isso é apenas o primeiro estágio. O estágio seguinte — mais difícil, menos ensinado e quase nunca avaliado — é aprender a revisar a própria forma de decidir.

Porque a experiência continua sendo um ativo indispensável. O que ela não faz, sozinha, é se atualizar. Ela ensina enquanto o mundo se parece com aquele em que foi adquirida, e passa a enganar silenciosamente quando deixa de se parecer.

O verdadeiro teste da maturidade de um líder, portanto, não é quantas decisões ele acertou. É quantas vezes foi capaz de abandonar uma forma de pensar que antes o tornava bem-sucedido.