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Notícia

Boa gestão ajuda pequenos negócios a superarem desafios no país; veja guia

Diante da alta de custos e dívidas, a importância do planejamento cresce. Confira ainda como obter crédito

O empreendedorismo está em alta no país. Somente entre janeiro e abril, 2.050.548 pequenos negócios foram abertos (um aumento de quase 14% em comparação com o mesmo período de 2025). A autonomia que muitos buscam no trabalho não é um caminho sem dificuldades, no entanto. Pesquisa Pulso, realizada neste ano pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), mostra que os empreendedores enfrentam atualmente: aumento de custos, falta de clientes e dívidas que crescem como fatores de preocupação.

— Isso revela que o empreendedor continua resiliente, empreendendo e gerando renda, mas opera hoje com menor margem financeira e maior necessidade de planejamento — diz Marcos Mendes, coordenador de Soluções Financeiras do Sebrae Rio.

A combinação de fatores pressionando os negócios, segundo ele, leva empreendedores a tomarem decisões de curto prazo e adiarem controles financeiros. Some a isso que muitos, apesar de dominarem bem seus produtos e serviços, nem sempre tiveram acesso à educação financeira ou à formação em gestão.

'Mais do que olhar números, gestão financeira significa criar previsibilidade', diz Marcos Mendes, coordenador do Sebrae Rio

Mas a boa gestão financeira é necessária. Envolve acompanhar entradas e saídas, controlar fluxo de caixa, planejar pagamentos, precificar corretamente, acompanhar indicadores, separar finanças pessoais de empresariais, usar crédito de forma estratégica — aponta Mendes: — A importância é direta: empresas que têm gestão financeira estruturada tendem a reduzir desperdícios, tomar decisões melhores e aumentar a capacidade de crescimento.

De acordo com Érica Mester, advogada e empreendedora social, o registro de informações pode começar de forma simples. É o que ensina na plataforma Divas do Lucro, criada por ela para capacitação de mulheres periféricas:

— A gestão pode começar num caderno. Inclusive, para muitas empreendedoras, é o jeito mais fácil de criar o hábito de anotar as vendas e as despesas. É um erro achar que precisa começar perfeito. Não precisa. Mas digitalizar depois faz diferença porque facilita muito a visualização das informações, os cálculos e o acompanhamento do crescimento do negócio.

Dicas para começar

  • Anote - Sem anotação, a pessoa trabalha no escuro. É importante registrar: vendas do dia; gastos com material; contas fixas (aluguel, internet, boleto do MEI, etc); dívidas; quanto cada produto realmente custa; formas de pagamento recebidas.
  • Utilize - O mais importante é criar o hábito de acompanhar o negócio, e não usar a ferramenta mais moderna. Algumas opções gratuitas são: caderno; Google Planilhas; Canva Planilhas; notas do celular; calculadora simples de precificação.
  • Analise - A gestão ajuda a transformar informação em decisão. Perceba: quais produtos dão mais lucro; onde está gastando demais; quais dias vende mais; se o preço está correto; se o negócio realmente está crescendo.

Fonte: Érica Mester, criadora do projeto Divas do Lucro.

Onde obter capacitação gratuita

Sebrae - O Click Finanças (https:// sites.rj.sebrae.com.br/clickfinancas) conta com conteúdos, ferramentas e consultorias para descomplicar a gestão financeira das empresas. O empreendedor ainda pode procurar apoio pelas redes sociais oficiais, pelo telefone 0800-570-0800 e presencialmente nos escritórios regionais.

Banco do Brasil - Por meio da Liga PJ, o BB oferece conteúdos de educação e gestão financeira, em linguagem simples e acessível para pequenos negócios. Entre os materiais disponíveis estão: e-books sobre temas como fluxo de caixa e precificação, além de vídeos com dicas aplicáveis ao dia a dia. Os clientes podem acessar os materiais pelo aplicativo BB PJ, e os não clientes podem encontrar informações no perfil @LigaPJ do Instagram.

Bradesco - Tem um hotsite direcionado ao MEI com trilhas sobre educação financeira: https://banco.bradesco/cidadania-financeira/educacao-financeira/mei/.

Caixa - Mantém conteúdos que orientam empreendedores na organização das finanças, contribuindo para uma gestão mais eficiente e sustentável dos negócios em https://www.caixa.gov.br/educacao-financeira/.

C6 Bank - O Empreender na Prática, disponível no canal do YouTube, apresenta conteúdos e ferramentas para ajudar donos de pequenas e médias empresas a estruturar as finanças. A instituição também tem em seu blog (www.c6bank.com.br/blog) editorias específicas para MEI e empresas, com conteúdos sobre gestão financeira, organização e tomada de decisão.

Itaú - Os clientes contam com a orientação de times comerciais e especialistas, que apoiam a gestão financeira e a tomada de decisão conforme o contexto do negócio. Além do apoio direto, o banco tem iniciativas como o Itaú Mulher Empreendedora,que desde 2013 oferece conteúdos sobre finanças e negócios. Acesse o endereço https:// itaumulherempreendedora.com.br.

Nubak - Há uma editoria no blog https://blog.nubank.com.br dedicada a empresas, com conteúdos educativos, guias práticos e calculadoras focados em gestão, finanças e soluções bancárias para quem tem CNPJ.

'Eu fiquei mais organizada com meu CNPJ'

Leia depoimento de Amanda Ribeiro, dona da loja Cheirosas Ateliê, de 43 anos:

Há 20 anos, eu trabalhava em shopping, alcançava metas altíssimas e ganhava pouco. Então pensei: tenho que mudar de vida, posso vender por conta própria. Em 2007, investi R$ 200 em roupas para virar sacoleira. Estava indo bem, mas em 2010 eu me mudei para a Europa, acompanhando meu ex-marido, e não dei baixa no MEI. Eu não tinha muita informação na época. Só parei de pagar os boletos mensais do DAS. Quando voltei para o Brasil quatro anos depois, querendo empreender novamente, tinha uma dívida grande. Foi um susto. Procurei negociar para o pagamento parcelado e fiquei três anos arcando com isso. Eu me tornei muito mais organizada com meu CNPJ, fiz cursos no Sebrae e abri uma loja física na Cidade de Deus, onde moro. Meu negócio cresceu. Aqui na comunidade, as pessoas ainda compram anotando o nome no caderninho, mas eu faço toda a minha gestão num sistema informatizado. É importante para eu contabilizar clientes, estoques, prever faturamento, ter insights. Ao longo do tempo, investi em moda plus size, criei um bazar, tenho uma linha masculina e estou pensando em infantil. Dentro da minha comunidade, eu consegui conquistar respeito e influência. Mas sei que minha loja poderia estar dentro de um shopping. Falta crédito para isso. Até aqui eu cheguei sozinha, mas preciso de oportunidades para ir além.

Propósito é chave para crédito

Necessária para o crescimento de muitos empreendedores e empresas, a tomada de crédito ainda é um desafio no país. A Pesquisa Pulso mostra que aproximadamente um quarto dos pequenos negócios buscou empréstimo bancário recentemente, mas apenas 43% conseguiram aprovação.

Dois fatores explicam isso: na oferta, há barreiras como exigência de garantias e juros elevados; na gestão dos empreendedores, há problemas como ausências de documentação organizada, de fluxo de caixa estruturado ou de separação das finanças pessoais e empresariais.

— Por isso, o debate hoje não é apenas ampliar crédito. É ampliar acesso ao crédito orientado — diz Marcos Mendes: — No Sebrae Rio, trabalhamos muito essa lógica por meio do Click Finanças. Preparamos o empreendedor para organizar a gestão financeira, estruturar fluxo de caixa e entender qual crédito faz sentido para o negócio.

Políticas de acesso ao crédito se tornaram um dos focos de trabalho do governo federal nos últimos anos. Em 2024, foi lançado o programa Acredita, com microcrédito orientado para inscritos no CadÚnico. Em maio deste ano, a nova fase do Desenrola 2.0 facilitou as condições do Pronampe e do Procred 360, voltados a MEIs, micro e pequenas empresas.

Suyane Camilo, de 32 anos, fechou contrato com a Caixa Econômica Federal há um mês.

— Eu recebo o Bolsa Família e trabalho em casa, fazendo tranças. Eu nunca deixei de trabalhar e querer me tornar alguém que vive da beleza. Desejava alavancar meu negócio, fazer um curso e comprar material para fazer design de unhas também, mas não tinha dinheiro. Então fiquei sabendo do programa Acredita e peguei crédito — diz Suyane: — As parcelas são pequenas. Não vão atrapalhar o orçamento. E essa segunda especialidade logo vai me dar um rendimento maior.

A trancista Suyane Camilo, de 32 anos, quer expandir os negócios para o design de unhas

A solicitação de crédito deve ter um propósito claro como o de Suyane, para que o recurso não evapore e vire dívida, alerta Jaqueline Dantas, sócia-diretora da RJ Consultoria Estratégia.

'Deve servir para alavancar o negócio ou trocar a dívida cara por uma mais barata', orienta Jaqueline Dantas, sócia-diretora da RJ Consultoria Estratégica

Além disso, é preciso elaborar um plano de pagamento dele.

É preciso considerar custos para a implantação da inovação desejada, expectativas de ganhos com ela — e o tempo de carência pode ser um aliado para pagar as parcelas já com retorno do crédito investido. Até a data de vencimento das parcelas deve ser estratégica, diz Jaqueline:

— Para os negócios sem capital de giro, escolher a semana errada arrisca a operação. Por exemplo, a semana de pagamento da folha e de impostos já é sobrecarregada.

Conheça programas federais

  • Acredita no primeiro passo - É um microcrédito destinado a pessoas físicas inscritas no Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal e a microempreendedores individuais (MEIs) também incluídos no CadÚnico. Os valores liberados podem chegar a R$ 21 mil, de acordo com a capacidade de pagamento e o plano de negócios do empreendedor. O prazo para pagamento varia entre cinco e 18 meses, com até 59 dias para quitação da primeira parcela. A taxa de juros é composta por Selic + 2% ao ano, acrescida de uma Tarifa de Abertura de Crédito (TAC) de 3%. As contratações são garantidas pelo Fundo Garantidor de Operações (FGO), com alíquota zero de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
  • Procred 360 - O programa, que também usa garantias do FGO, é voltado a microempresas, que têm faturamento anual de até R$ 360 mil por ano. O Desenrola 2.0 alterou as condições recentemente para a linha: a carência passou de 12 para 24 meses; o prazo máximo da operação subiu de 72 para 96 meses; e o valor total do crédito aumentou de 30% do faturamento (com teto de R$ 150 mil) para 50% (com novo teto em R$ 180 mil), sendo que para empresas lideradas por mulheres pode chegar a 60% (com novo teto em R$ 180 mil). A tolerância no atraso para concessão de novos créditos subiu de 14 para 90 dias. De acordo com o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Memp), até o momento, já foram contratados R$ 637,8 milhões em cerca de 15 mil operações.
  • Pronampe - É um crédito voltado para micro e pequenas empresas, com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. O Desenrola 2.0 também efetuou mudanças nas condições do programa, garantido pelo FGO: a carência passou de 12 para 24 meses; o prazo máximo da operação subiu de 72 para 96 meses; e o valor total do crédito aumentou de R$ 250 mil para R$ 500 mil. A tolerância no atraso para concessão de novos créditos subiu de 14 para90 dias. Até agora, já foram contratados R$ 8,1 bilhões em operações do Pronampe, considerando 51 mil contratos.

Onde os créditos são oferecidos

A Agência Estadual de Fomento do Rio de Janeiro (Agerio) tem uma linha própria de microcrédito, com limite de até R$ 21 mil. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal participam do programa Acredita e oferecem linhas como Pronampe e Procred. O Itaú aderiu ao Desenrola 2.0. Nubank e C6 também têm portfólios de crédito voltados aos pequenos negócios.

‘Estou pagando o empréstimo e quero ir além’

Leia o depoimento de Mônica dos Santos, vendedora de roupas, de 56 anos:

Depois de certa idade, é difícil recolocar-se no mercado. Eu estava em depressão profunda, sem dinheiro nem para comprar material e empreender. Então, na Caixa, me ofereceram crédito pelo Acredita. Peguei R$ 3 mil, comprei roupas e fui vender. Com o faturamento, estou pagando o empréstimo, comprei outra remessa de roupas e quero ir além. Acordei para o empreendedorismo.

Tem dívidas? Busque o credor

A Pesquisa Pulso também indica aumento da inadimplência entre os pequenos negócios. Em março, 28% das empresas declararam ter dívidas ou parcelas de empréstimos em atraso. Para 59% dos MEIs, elas representavam 30% ou mais dos custos mensais.

Credores, em geral, têm interesse de fazer renegociações, abatendo valores e esticando prazos de pagamento. Além disso, programas como o Desenrola 2.0, lançado pelo governo federal em maio, permitem trocar dívidas mais caras por dívidas mais baratas.

Mas seja qual for a estratégia escolhida, reorganizar o comportamento financeiro é o que gera sustentabilidade.

— Buscar o credor de forma proativa é uma estratégia positiva, mas o primeiro passo é ter clareza sobre a capacidade real de pagamento. Antes de fechar um acordo, vale analisar o fluxo de caixa, receitas previstas e compromissos assumidos para os próximos meses. Também é recomendável analisar condições das dívidas em aberto, para avaliar quais devem ser priorizadas. Após o fechamento do acordo, é importante que a empresa acompanhe de perto seu fluxo de caixa para evitar novos casos de inadimplência — diz Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.

Canais de renegociação rápida

Serasa - A partir da plataforma Serasa Limpa Nome, sócios podem acessar suas dívidas também no CNPJ. São mais de 34 milhões de ofertas PJ disponíveis com 635 empresas parceiras. O desconto médio é de 63%, podendo chegar a até 90%. Muitas negociações também oferecem opções de parcelamento. Acesse www.serasalimpanome.com.br.

Banco do Brasil - Oferece a seus clientes a possibilidade de renegociar dívidas diretamente pelo WhatsApp (61) 4004-0001, com uso da senha pessoal e suporte humano, quando necessário. O acesso a negociação também ocorre em outros canais oficiais, como o site www.bb.com.br/solucaodedividas e as agências.

Caixa - Oferece propostas ajustadas ao perfil de cada empresa nos canais digitais, nas centrais de atendimento e nas agências. Site: www.caixa.gov.br/voce/negociacao.

C6 Bank - Os clientes podem acessar condições especiais de renegociação, com taxa de juros máxima de 1,49% ao mês e prazo de pagamento em até 72 parcelas para dívidas de cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal em atraso entre 91 e 720 dias. Para consultar as condições no aplicativo do banco, basta buscar por “Renegociação” no campo “Posso te ajudar” e seguir as orientações.

Itaú - As condições podem ser acessadas pelos canais de atendimento do Itaú Empresas, como o site www.itau.com.br/empresas, o aplicativo e os gerentes de negócios.

Nubank - Realiza campanhas de renegociação de dívidas para clientes Nu Empresas. As ofertas ficam disponíveis no aplicativo, e os clientes podem ter mais informações por meio dos demais canais de atendimento Site: https://nubank.com.br.

‘Os pequenos negócios são essenciais para o país’

Leia o depoimento de Paulo Pereira, ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte:

O governo sabe que o brasileiro tem vocação empreendedora, mas também sabe que vontade sozinha não paga máquina, aluguel ou funcionário. Muita gente quer começar, formalizar ou ampliar o negócio, mas esbarra na falta de capital ou em dívidas antigas. Por isso, o Ministério do Empreendedorismo trata o crédito como política de desenvolvimento. O ProCred 360 atende MEIs e microempresas, com juros até 50% menores do que os praticados no mercado. Isso é possível porque o governo entra com garantia por meio do fundo garantidor. O Novo Desenrola Empresas entra para resolver o outro lado do problema, permitindo trocar uma dívida cara por uma dívida mais barata. Além disso, o governo trabalha para abrir mercado. O Contrata+Brasil aproxima pequenos negócios das compras públicas. Para a população, empreender muitas vezes significa sustentar a família. Para o país, os pequenos negócios são essenciais: respondem pela imensa maioria dos empregos formais e fazem a renda circular nos municípios. Quando um pequeno negócio vai bem, ele vende mais, compra mais, contrata mais. Apoiar o empreendedor não é pauta isolada: é política econômica e social. Ajuda o pequeno negócio a sair da sobrevivência e a ganhar capacidade de crescimento.