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A nova face da classe C: da ascensão pelo consumo ao desejo de autonomia como empreendedor
Mudanças no mercado de trabalho reduzem o interesse pelo regime CLT e ampliam o contingente de novos empreendedores
A falta de mão de obra qualificada vem se tornando um problema cada vez mais frequente nas empresas. As novas gerações têm evitado o compromisso do trabalho seguro e eventualmente estável proporcionado pelo contrato CLT. Existe uma questão geracional que provoca nos jovens trabalhadores uma certa aversão pelo regime celetista e pelas obrigações e compromissos determinados pelo modelo de trabalho predominante no país desde os anos 1940.
No entanto, os especialistas apontam as mudanças que o mercado de trabalho brasileiro tem vivido nos últimos anos como um fator determinante para a redução da oferta de mão de obra mais qualificada. A denominada Classe C, estrato social resultante da mobilidade promovida pelas políticas públicas dos governos petistas nas últimas décadas, passa por uma grande transformação; na verdade, uma transição socioeconômica e cultural importante.
Em busca da autonomia - A mobilidade social e as conquistas proporcionadas pelo acesso ao consumo e ao crédito, por meio da inclusão bancária, não impedem que esse estrato social passe por uma mudança evidente em suas aspirações. Se há pouco mais de uma década o topo do sucesso profissional para essa parcela da população era a estabilidade conquistada via carteira assinada, o cenário contemporâneo sinaliza que existe uma procura pela autonomia por meio da abertura de negócios próprios.
Essa mudança no perfil e nas preferências do trabalhador não representa apenas um dado conjuntural. A partir dos anos 2000, o perfil das famílias da Classe C no Brasil passou por uma grande transformação. O maior acesso à educação básica, a conquista de bens duráveis e uma compreensão mais ampla das dinâmicas financeiras do país permitiram que esse grupo repensasse suas metas de vida e padrões de consumo.
No entanto, essa ascensão enfrenta o peso dos tributos, um forte obstáculo estrutural. Por ter sua renda concentrada essencialmente no consumo, a classe média arca com uma das cargas tributárias mais desproporcionais do país. Se olharmos para os extremos da pirâmide social, encontramos um forte contraste, já que as faixas de menor renda contam com o suporte essencial de programas de transferência de renda, as classes A/B dispõem de maior margem financeira e de mecanismos de preservação de patrimônio, como investimentos isentos de impostos. Assim, a Classe C se vê pressionada no centro do sistema fiscal, equilibrando o desejo de avançar com o custo elevado de se manter no topo da base de consumo.
Tetos limitados - Nos últimos anos, o teto do funcionalismo público e a rigidez salarial do emprego formal começaram a ser vistos como um limitador real de crescimento profissional e pessoal, um cenário agravado por um mercado que, mesmo com estabilidade monetária, é pressionado pela inflação e pela perda do poder de compra. A consequência é que o profissional que antes buscava a proteção da CLT passa a ver nesse modelo uma barreira com tetos de remuneração limitados.
É aí que entra a opção pela abertura de micro e pequenas empresas (MEIs), um risco que, no entanto, cria novas perspectivas de receita para quem já não se conforma com as limitações impostas pelo modelo tradicional.
CLT x empreendedorismo - Pesquisa de opinião do Datafolha de junho de 2025 revelou que cerca de 59% dos brasileiros manifestam preferência pelo trabalho por conta própria, contra os 39% que preferem a rotina de escritórios e fábricas tradicionais.
Embora seja fundamental salientar que existe o “empreendedorismo por necessidade” quando a falta de postos de trabalho formais com alta remuneração empurra profissionais para uma informalidade que promete mais autonomia, os fatores geracional e ideológico consolidam uma preferência cultural muito nítida. O desejo irreprimível por flexibilidade de horários, crescimento financeiro escalável e controle direto sobre o próprio tempo supera, com folga, a atratividade do antigo salário fixo mensal. Trata-se de um movimento especialmente forte entre os jovens oriundos dessa nova classe média.
Podemos dizer, portanto, que o discurso de se tornar o "patrão de si mesmo" capturou o imaginário da Classe C. Ao deixar deliberadamente para trás a mentalidade puramente operária e assistencialista do início do século, o brasileiro remodelou por completo o seu próprio conceito de segurança econômica. Para esse novo trabalhador, a estabilidade de longo prazo não reside mais em um contrato assinado e garantido por terceiros, mas sim na capacidade estritamente individual de gerir e expandir o seu próprio negócio no mercado local.
O recado político e institucional para os formuladores de políticas públicas e partidos que moldaram suas bases eleitorais no emprego industrial clássico é inequívoco: o Brasil que se move na base da pirâmide socioeconômica quer, acima de tudo, prosperar e crescer.
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