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Empresas apostam em IA, mas ainda tropeçam no básico: regras e treinamento
Pesquisa mostra que 86% das empresas priorizam ampliar o uso de inteligência artificial, mas só 29% têm políticas claras e 43% oferecem treinamento específico
A corrida corporativa pela inteligência artificial parece ter começado antes de parte das empresas responder a questões básicas: quem pode usar a tecnologia, para quê, seguindo quais regras e com qual treinamento?
É o que mostra a pesquisa RH Digital & IA 2026, realizada pela Alina, plataforma de gestão de pessoas com recursos de IA e people analytics.
O levantamento ouviu 51 empresas de diferentes portes e setores, majoritariamente por meio de profissionais C-level e diretores. Cerca de 20% das participantes têm mais de mil funcionários.
mesmo tempo, somente 29% possuem políticas claras sobre seu uso e 45% afirmam ter uma estratégia definida para implementar processos de informatização.
Apenas 10% avaliam que suas equipes possuem conhecimento avançado para conduzi-los.
A distância fica ainda mais evidente quando a pesquisa compara incentivo e preparo. Três em cada quatro empresas (75%) incentivam os colaboradores a usar IA. Mas apenas 39% afirmam que seus funcionários sabem identificar onde e como aplicar a tecnologia.
“O avanço da IA é inegável”, diz Marcel Hwa, CEO da Alina. “Mas os dados mostram que é preciso transformar essa prioridade declarada em políticas efetivas e capazes de orientar o uso da tecnologia, preparar as equipes e estabelecer critérios claros para sua aplicação.”
Falta treinamento — e medir o que é feito
O descompasso não aparece apenas no conhecimento dos funcionários.
Embora em 76% das empresas mais da metade dos líderes use IA, somente 41% têm orçamento definido para que os colaboradores utilizem a tecnologia. Apenas 24% medem seu uso.
Treinamento também está longe de ser universal. Só 43% das empresas oferecem capacitação específica em IA, enquanto 63% apontam justamente a falta de conhecimento como a principal barreira à adoção.
A fotografia captada pela pesquisa é, portanto, de uma tecnologia que entrou rapidamente na rotina corporativa, enquanto a estrutura necessária para organizá-la ainda está sendo construída.
Outro levantamento aponta na mesma direção, agora sob a perspectiva dos trabalhadores. Pesquisa da Hashtag Treinamentos com 5.569 profissionais encontrou que apenas 20,6% percebiam investimento claro em IA nas organizações em que atuavam.
Outros 20,4% disseram ter ferramentas disponíveis, mas sem treinamento, e 13,1% relataram apenas capacitações pontuais.
As pesquisas têm metodologias e públicos diferentes e, portanto, seus percentuais não são diretamente comparáveis. Mas ambas identificam a mesma distância entre disponibilizar tecnologia e preparar pessoas para utilizá-la.
“Existe uma diferença importante entre disponibilizar ou incentivar uma tecnologia e criar as condições para que ela gere resultados”, afirma Hwa.
“A pesquisa mostra que as empresas estão avançando no primeiro movimento, mas ainda precisam evoluir para que atividades analíticas e ligadas ao planejamento do RH possam absorver os benefícios da inovação com maturidade”, completa.
Treinamento virou parte do problema da IA
A lacuna não é exclusivamente brasileira. Um levantamento da McKinsey aponta que 71% dos profissionais acreditam que a IA afetará diretamente seu trabalho e exigirá novas competências.
Outro dado ajuda a dimensionar a questão: 24% dos profissionais disseram não ter recebido nenhuma hora de treinamento corporativo nos 12 meses anteriores, não apenas em inteligência artificial.
Isso importa porque a transformação provocada pela IA não depende somente de aprender a operar uma ferramenta. Ela pode exigir mudanças nas funções, nos processos, nas responsabilidades e até na maneira como o desempenho é avaliado.
Na pesquisa da Alina, o próprio RH aparece no centro desse desafio: 73% das empresas afirmam que a área conduz sua jornada de transformação digital.
Adotar não significa gerar resultado
A diferença entre comprar tecnologia e extrair valor dela também aparece entre executivos.
Uma pesquisa conduzida por Nicholas Bloom, da Stanford Graduate School of Business, com 6 mil executivos ao redor do mundo, indica que cerca de três quartos das organizações já utilizam inteligência artificial em algum grau.
Apesar da disseminação, os executivos projetam ganhos médios de apenas 1,4% em produtividade e 0,8% em produção.
O uso médio de IA entre os próprios líderes pesquisados é de aproximadamente 1,5 hora por semana, e um quarto deles afirmam não utilizar nenhuma ferramenta de IA no trabalho.
A análise destaca obstáculos que vão além da infraestrutura tecnológica: motivação de negócio pouco clara para adotar ferramentas, equipes com diferentes níveis de familiaridade tratadas da mesma maneira e ausência de governança sobre dados, riscos e revisão humana.
O contraste ajuda a mudar a pergunta.
Para empresas que já compraram licenças, liberaram ferramentas ou incentivaram funcionários a experimentar IA, o próximo desafio não é simplesmente adotar mais. É determinar onde a tecnologia efetivamente melhora o negócio — e preparar as pessoas para isso.
Cultura corporativa também entra na conta
Há ainda uma dimensão menos tecnológica nessa transformação.
Ferramentas novas alteram rotinas e exigem aprendizado. Nesse cenário, clareza sobre expectativas, suporte da liderança, treinamento e autonomia passam a fazer parte das condições para que o funcionário consiga se adaptar.
Rennan Vilar, diretor de Pessoas e Cultura do Grupo Todos Internacional, chama atenção para a distância que pode surgir entre aquilo que uma empresa afirma oferecer e o que o profissional encontra no cotidiano.
“Toda empresa consegue comunicar muito bem seus valores durante um processo seletivo. A diferença aparece quando o profissional começa a viver a rotina”, comenta Vilar.
“É ali que ele percebe se aquilo que foi prometido realmente faz parte da cultura ou se ficou restrito ao discurso”, complementa.
Ele não se refere especificamente à adoção de inteligência artificial. Sua análise trata de cultura organizacional de forma mais ampla.
Entre os elementos que recomenda observar estão clareza de expectativas, autonomia e estrutura para trabalhar, incluindo ferramentas, treinamentos, processos e recursos suficientes para as entregas.
A distinção é importante: instalar uma ferramenta é uma decisão tecnológica; criar condições para que as pessoas consigam incorporá-la ao trabalho é também uma decisão de gestão.
“Quando a falta de comunicação, o excesso de cobrança, a ausência de suporte ou comportamentos incoerentes fazem parte da rotina, o profissional começa a perceber que não está diante de um episódio isolado, mas de um padrão organizacional”, afirma Vilar.
O RH automatizou o básico — por enquanto
A pesquisa da Alina encontra diferentes velocidades dentro dos departamentos de recursos humanos.
Em uma escala de 1 a 5, folha de pagamento e controle de ponto e jornada alcançam índice de digitalização de 3,3. Já indicadores de people analytics ficam em 2,4, enquanto simulações de mudanças na estrutura organizacional registram apenas 1,8.
A diferença sugere que automatizar processos repetitivos avançou mais do que digitalizar atividades que exigem análise e apoio a decisões.
Esse resultado conversa com outro levantamento recente. Pesquisa da Caju com 317 respostas válidas atribuiu ao RH brasileiro nota média de 37 em uma escala de 0 a 100 baseada nas quatro ondas do modelo de Dave Ulrich.
O resultado coloca a área ainda na segunda onda, chamada de RH funcional, enquanto a fase estratégica começa acima de 50 pontos.
É justamente sobre esse RH que recai boa parte da tarefa de preparar trabalhadores e organizações para a inteligência artificial.
IA já entrou; agora começa a parte difícil
A corrida pela IA colocou ferramentas nas mãos de funcionários e líderes em velocidade elevada. Os dados mais recentes sugerem que a segunda etapa pode ser mais difícil do que a primeira.
Na pesquisa da Alina, 86% das empresas tratam a ampliação da IA como prioridade, mas só 29% têm políticas claras, 43% oferecem treinamento específico e 24% medem sua utilização.
Para o trabalhador, isso significa que aprender IA tende a ganhar importância, mas também que a responsabilidade não pode ficar apenas com quem usa a ferramenta.
Empresas terão de definir regras, oferecer capacitação e deixar claro onde a tecnologia deve — e onde não deve — entrar no trabalho.
Para as empresas, o próximo indicador relevante pode deixar de ser quantos funcionários usam IA e passar a ser quantos sabem usá-la com objetivo, treinamento e regras claras.
A tecnologia já chegou. Agora o desafio é transformar adoção em capacidade — e capacidade em resultado.
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