Escolha é facultativa e mantém a empresa no Simples Nacional, mas retira os dois novos tributos do DAS; nova oportunidade será aberta em março de 2027
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Notícia
A glamourização do CEO de MEI
Abrir um negócio é rápido; construir uma empresa exige gestão, disciplina, capacidade financeira e persistência para superar desafios e manter a operação sustentável
Existe uma diferença enorme entre abrir um negócio e construir uma empresa. A primeira decisão pode acontecer em poucas horas. A segunda exige anos de gestão, disciplina, capacidade financeira e maturidade para enfrentar períodos em que o entusiasmo já desapareceu, mas as contas continuam chegando e os desafios não vão embora.
Esta mudança silenciosa está acontecendo no mercado de trabalho brasileiro. Ela não começou com a inteligência artificial, nem com a pandemia, muito menos com o aumento do número de microempreendedores individuais. Esses acontecimentos apenas aceleraram um movimento que já vinha transformando a forma como as pessoas enxergam trabalho, sucesso e pertencimento.
Durante muito tempo, a carreira profissional seguia um roteiro relativamente padronizado onde pessoas buscavam um emprego, construíam uma trajetória, conquistar estabilidade.
Empreendedorismo: necessidade ou oportunidade?
Hoje o emprego formal já não oferece a previsibilidade e também deixou de representar um caminho claro de crescimento. Nesse cenário, o CNPJ passou a ocupar um espaço que antes era do crachá. Abrir uma empresa deixou de significar apenas empreender. Para muita gente, tornou-se uma forma de recuperar autonomia, reconstruir a própria identidade profissional e voltar a sentir algum controle sobre a própria vida.
É justamente aí que mora um dos maiores equívocos da nossa época. Estamos começando a romantizar o empreendedorismo sem compreender o que está impulsionando esse crescimento.
É evidente que houve avanços importantes. A formalização ficou mais acessível, as redes sociais facilitam a divulgação, a tecnologia reduziu barreiras de entrada e hoje é possível vender, atender clientes, emitir notas fiscais e receber pagamentos com uma estrutura infinitamente menor do que aquela exigida há poucos anos. Nunca foi tão fácil começar.
Mas começar nunca foi o maior desafio, afinal seguimos sendo campeões em empresas que fecham antes de completar 05 anos de existência. Sustentar continua sendo o maior desafio.
Talvez por isso o crescimento do empreendedorismo brasileiro precise ser analisado com mais cuidado. Afinal nem todo novo CNPJ nasceu de uma oportunidade, a maior parte nasce da necessidade.
Existe uma diferença importante entre escolher empreender e precisar empreender porque o mercado formal deixou de oferecer alternativas capazes de sustentar uma família. Em muitos casos, o empreendedorismo não representa um sonho realizado. Representa a tentativa de recuperar um senso de estabilidade que o emprego já não consegue oferecer.
Essa mudança altera completamente o significado do fenômeno, pois alguém abre um negócio movido por oportunidade, normalmente planeja crescimento. Já quando abre por necessidade, quase sempre planeja sobrevivência.
E negócios construídos para sobreviver enfrentam desafios muito diferentes daqueles criados para escalar.
A romantização do empreendedorismo
Existe também uma transformação cultural que merece atenção, já que em alguns círculos, ser empreendedor passou a representar sucesso antes mesmo que o negócio exista de forma consistente. O título de CEO ganhou status, ainda que a empresa tenha apenas um funcionário, um computador e uma conta bancária recém-aberta em uma fintech sem gerente PJ.
Não há problema em começar pequeno. Toda grande empresa começou assim.
O problema é transformar o símbolo em conquista antes que a realidade o sustente. E ostentar antes que a empresa se banque apenas por achar bacana dizer que é CEO, mesmo que seja de MEI. Essa narrativa que parece conquista esconde o desejo de se firmar e mostrar que deu certo, que fez uma nova escolha de carreira.
É aqui que precisamos ter cautela. O mercado costuma celebrar o momento em que alguém abre uma empresa, mas permanece quase em silêncio quando esse mesmo empreendedor enfrenta dificuldades para mantê-la viva. As redes sociais gostam do primeiro dia. Pouco se interessam pelo terceiro ano, quando o algoritmo muda, os custos aumentam, o crédito encarece, a margem diminui e o entusiasmo precisa dar lugar à gestão.
Porque nenhum negócio quebra por falta de coragem de empreender, mas pela falta de conhecimento em gerir. Afinal acesso fácil a crédito não substitui modelo de negócio e tecnologia não funciona bem sem estratégia. O esforço, por mais admirável que seja, não corrige uma operação financeiramente inviável.
O crescimento do número de empreendedores revela muito mais do que uma vocação nacional para os negócios. Ele revela uma profunda transformação na relação das pessoas com o trabalho e, principalmente, na capacidade que o mercado formal tem demonstrado de oferecer estabilidade e perspectivas de futuro para muitos que olham para o empreendedorismo como mais uma opção de carreira e não como escolha de carreira.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja por que o número de empreendedores continua crescendo. Talvez devêssemos perguntar quantos brasileiros estão, de fato, construindo autonomia e escolhendo empreender e quantos apenas encontraram no CNPJ a forma mais digna de continuar sobrevivendo.
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