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Sete em cada 10 empresas não executam os próprios planos; o que explica?
Em comum, pesquisas recentes indicam que o problema deixou de ser a falta de estratégia e passou a ser a dificuldade de transformar decisões em entendimento e ação dentro das organizações
A inteligência artificial escreve e-mails, resume reuniões, organiza apresentações e produz relatórios em poucos segundos.
Mas existe uma habilidade que continua exclusivamente humana — e que vem se tornando um dos principais gargalos das empresas: fazer as pessoas entenderem o que realmente precisa ser feito.
Um levantamento da McKinsey & Company com mais de 10 mil executivos de 15 países revela que 72% dos líderes afirmam que suas organizações não conseguem executar os planos que aprovam.
O problema, segundo o relatório State of Organizations 2026, não está na qualidade da estratégia, mas na dificuldade de transformá-la em ações concretas dentro das empresas.
O dado ajuda a explicar uma mudança silenciosa na gestão corporativa.
Depois de anos investindo em transformação digital, inteligência artificial e novas ferramentas, cresce a percepção de que o maior desafio passou a ser outro: garantir que as decisões da liderança sejam compreendidas por quem precisa executá-las.
Comunicar não significa gerar entendimento
Na avaliação de Juliana Algodoal, especialista em comunicação corporativa e linguagem no trabalho, muitas empresas confundem informação com compreensão.
“As ferramentas de comunicação evoluíram muito rápido e a compreensão, não. Hoje, a maior falha dentro das empresas não é formular estratégia, é fazer o time entender o que precisa ser feito”, afirma.
Segundo ela, o excesso de canais digitais ampliou um problema que já existia.
A mesma orientação costuma chegar por e-mail, aplicativos de mensagens, plataformas de colaboração e videoconferências. Em vez de tornar a comunicação mais eficiente, esse excesso fragmenta a atenção e dificulta a definição de prioridades.
“Com a chegada da IA nas rotinas corporativas, esse problema ficou mais evidente. Quando a mesma informação vem por vários canais, como e-mail, WhatsApp, Teams, Google Meet, isso aumenta a pressão e fragmenta a atenção”, explica Juliana.
“O que mais sobrecarrega hoje não é a informação em si, mas as interrupções constantes e o excesso de trabalho”, prossegue.
Custo da falta de clareza já pode ser medido
A dificuldade de transformar comunicação em entendimento produz efeitos que vão além da percepção dos líderes.
Pesquisa da Grammarly, realizada em parceria com o The Harris Poll , estima que empresas americanas perdem até US$ 1,2 trilhão por ano por causa da comunicação ineficiente — o equivalente a US$ 12.506 por funcionário anualmente.
A percepção de que existe um descompasso entre falar e ser compreendido também aparece em outro levantamento.
Pesquisa da Ação Integrada, realizada com 2.200 gestores brasileiros, mostra que 70% dos líderes acreditam ser o principal canal de comunicação com suas equipes. Entre os profissionais de comunicação interna, porém, apenas 17% concordam com iss.
Em conjunto, os estudos sugerem que a maior parte das lideranças acredita comunicar com eficiência, enquanto as organizações ainda enfrentam dificuldades para transformar mensagens em entendimento e execução.
Comunicação virou competência estratégica
O avanço da inteligência artificial ajuda a explicar por que essa habilidade ganhou ainda mais relevância.
Ferramentas automatizam tarefas, sintetizam informações e aceleram a produção de conteúdo. Ao mesmo tempo, aumentam o volume de mensagens que circulam diariamente nas organizações e multiplicam os canais pelos quais elas são distribuídas.
Nesse cenário, o papel da liderança deixa de ser apenas produzir informação e passa a envolver algo mais complexo: organizar prioridades, traduzir decisões e reduzir ambiguidades para que as equipes consigam agir.
Os estudos convergem para um mesmo diagnóstico: as empresas já dispõem de tecnologia para acelerar a comunicação, mas ainda enfrentam dificuldades para garantir que a estratégia seja compreendida por quem precisa colocá-la em prática.
O líder precisa aprender a ser entendido
Para Juliana Algodoal, um dos erros mais comuns é imaginar que comunicar significa apenas falar ou informar.
Na prática, líderes costumam utilizar a mesma linguagem para públicos diferentes, ignorando que áreas distintas possuem repertórios e necessidades específicas.
“Líderes planejam a fala como se fosse para eles mesmos, sem ajustar para quem vai ouvir. Falam economês para não economistas. São prolixos justamente porque tentam se fazer entender, mas produzem o efeito contrário”, analisa Juliana.
Segundo ela, a solução passa por adaptar a linguagem ao interlocutor, organizar melhor as mensagens e confirmar se o entendimento realmente aconteceu.
“O cérebro gosta de economizar energia. Quanto mais fácil for entender, mais rápido o time age. Clareza não é virtude de comunicação, é estratégia de gestão”, conclui.
A transformação digital mudou profundamente a forma como as empresas produzem informação.
Agora, a convergência entre diferentes pesquisas aponta para uma nova realidade: a próxima vantagem competitiva pode depender menos da capacidade de formular boas estratégias e mais da habilidade de transformá-las em entendimento — e entendimento em execução.
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