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Adoecimento por bets afeta empresas com faltas, funcionários endividados e pedidos de adiantamento
Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) afirma que relatos de dívidas de milhares de reais e crises familiares ligadas a perdas nas apostas chegam aos departamentos de recursos humanos pelo País
O dono de restaurante Maurício Nishimori tem um funcionário que, por três meses seguidos, sumiu por um dia inteiro depois do depósito do salário. “Eu liguei para a esposa dele e descobri que o problema era aposta”, disse Nishimori à Folha, pedindo para preservar os nomes de seu colaborador e de seu negócio.
O empresário lida com um desafio reportado por diferentes entidades patronais e sindicais: os efeitos do adoecimento pelo jogo no ambiente de trabalho.
Relatos de dívidas de milhares de reais e crises familiares ligadas a perdas nas apostas chegam aos departamentos de recursos humanos, de acordo com a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) cita constantes pedidos de adiantamento e a desatenção dos funcionários como sinais de alerta.
Nishimori afirmou que orientou seu funcionário a pedido da esposa dele. “Disse que ele iria perder o emprego, a família e a moradia caso continuasse na mesma”, afirmou.
“Fui duro, mas não quero perdê-lo”, emendou o empresário. Fora dos momentos de mania, o trabalhador não atrasa e é habilidoso. “Ele é um bom funcionário, gente boníssima, e mão de obra hoje é ouro.”
Sem saber como lidar com um problema inédito, o dono do restaurante procurou solução na internet e recomendou que o trabalhador buscasse o teleatendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) –a inscrição é feita no Meu SUS Digital. A consulta, disponível para todo o país, é feita em parceria com o Hospital Sírio-Libanês e ocorre sob sigilo.
O problema afeta desde pequenos negócios, como parte dos associados da Abrasel, até grandes companhias. A fabricante de produtos de limpeza Ypê, a siderúrgica Gerdau e a Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, organizaram ações de conscientização sobre os riscos das apostas –desde oficinas educativas até programas de acolhimento para colaboradores já adoecidos.
As empresas não informam se sofrem prejuízos ou qual seria o tamanho das perdas decorrentes do adoecimento de sua força de trabalho.
O impacto é notado primeiro no departamento de recursos humanos, onde chegam os depoimentos sobre as causas do adoecimento, diz a presidente da ABRH, Leyla Nascimento. “Embora seja uma questão recente e existam poucos dados, o endividamento e o jogo compulsivo afetam a saúde mental dos trabalhadores e podem reduzir a produtividade das empresas, piorando toda a economia.”
No primeiro ano de mercado de apostas regulado, 2025, o número de afastamentos pelo adoecimento decorrente da perda de controle com jogo, chamada de ludopatia, subiu 59,8% frente a 2024 –passou de 425 a 679. São números modestos se comparados aos 4,5 milhões de afastamentos registrados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no período.
Na definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), o diagnóstico da ludopatia ocorre quando o jogo ganha mais importância do que áreas centrais da vida, como relações familiares e de trabalho. “Como consequência imediata, o trabalhador pode se tornar mais desatento e relapso, o que pode gerar erros não costumeiros, mas suficientes para causar grandes prejuízos e até acidentes laborais”, diz o médico do trabalho Marcos Mendanha.
Ele afirma que a dependência de apostas, por si só, não é uma geradora de incapacidade. Porém 82% dos pacientes que apresentam algum nível de transtorno do jogo têm algum outro transtorno mental associado, de acordo com estudo da Associação Europeia de Psiquiatria. “Quando os outros transtornos mentais se tornam perceptíveis, começam as faltas ao trabalho e os afastamentos por prazos maiores.”
As associações mais comuns são a dependência de substâncias, como álcool e outras drogas, depressão e ansiedade. Esses transtornos estão mais ligados à incapacidade dos trabalhadores do que a ludopatia de forma isolada, de acordo com Mendanha.
A Federação dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação Ambiental e Urbana (Femaco), que representa trabalhadores da limpeza, alerta sobre esses riscos em uma campanha de conscientização permanente desde maio. Nas palestras, a documentarista Renata Ketendjian relata como acompanhou a rotina de 23 pessoas dependentes de apostas no ano passado e recebeu a notícia do suicídio de oito delas.
“Enquanto muita gente ainda tratava as apostas online como entretenimento, nós enxergamos o que estava acontecendo na base da categoria: trabalhadores perdendo o salário, se endividando, recorrendo a empréstimos ilegais, adoecendo emocionalmente e, em casos extremos, chegando ao suicídio”, afirma o presidente da Femaco, Roberto Santiago.
No segundo semestre de 2025, a Ypê realizou um projeto-piloto de educação financeira e dedicou uma das rodas de conversa ao tema. A palestra “Bets: Diversão ou Armadilha Financeira?” mostrou os impactos financeiros e emocionais das apostas, os principais gatilhos comportamentais, os sinais de perda de controle, as estratégias de prevenção e a importância da busca por apoio profissional.
Segundo a empresa, os participantes receberam informações sobre canais de acolhimento e suporte, incluindo o próprio Programa Cuidar, além de outras redes de apoio, como o CVV e os Jogadores Anônimos.
“Mais do que responder a uma demanda específica, a ação reflete a estratégia da companhia de atuar de forma preventiva, oferecendo informação, acolhimento e ferramentas que contribuam para o bem-estar integral das pessoas”, afirmou Cristiane Lacerda Mutri, diretora de recursos humanos da empresa.
A Abrasel diz que o problema já é enfrentado por muitas empresas e pode impactar o ambiente de trabalho, o desempenho das equipes e a saúde financeira e emocional dos trabalhadores.
“Começamos a receber relatos de pedidos constantes de adiantamento, depressão e crises de pânico. Isso vem acompanhado de desatenção dos funcionários e saídas constantes para ir ao banheiro e jogar”, diz Gabriel Miranda, líder da Abrasel SP. Por isso, a entidade elaborou um documento de orientação para seus associados, que nem sempre têm caixa para estruturar grandes programas de saúde mental.
A cartilha, segundo Miranda, visa ajudar o empresário a se portar da maneira correta diante desse novo desafio. O manual mostra como acolher o profissional e evitar problemas com a Justiça do Trabalho.
“É algo diferente do jogo do bicho ou do caça-níquel, por causa da acessibilidade. O jogo está no bolso do funcionário”, diz.
Casos na Justiça também mostram demissões ligadas a comportamento compulsivo pelo jogo, e o Tribunal Superior do Trabalho (TST) avalia se deve comparar a ludopatia à dependência química, como critério de reversão da justa causa em decisões.
Autos de processos vistos pela reportagem mostram que uma falha recorrente nas reversões de justa causa relacionadas à dependência de jogos é a falta de ciência do patrão. Foi o caso de um vigilante de Vitória (ES) que foi demitido enquanto estava diagnosticado com a doença, mas não informou ao patrão do quadro clínico.
O diretor de saúde e bem-estar da ABRH orienta os funcionários a procurar os departamentos de recursos humanos em busca de acolhimento. “Nesses casos, a resposta adequada não é a justa causa pela compulsão, mas o encaminhamento para avaliação médica, tratamento e, quando necessário, afastamento pelo INSS.”
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