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O colaborador está na empresa, mas a mente não está: a epidemia silenciosa do presenteísmo
Durante muito tempo, o principal indicador de atenção das empresas foi o absenteísmo: quantas pessoas faltavam ao trabalho. Mas existe um fenômeno ainda mais preocupante e difícil de identificar: o presenteísmo
Durante muito tempo, o principal indicador de atenção das empresas foi o absenteísmo: quantas pessoas faltavam ao trabalho. Mas existe um fenômeno ainda mais preocupante e difícil de identificar: o presenteísmo.
Nesse caso, o colaborador está presente fisicamente, cumpre sua jornada e participa das reuniões. No entanto, sua atenção, energia e capacidade de produzir estão comprometidas. O corpo está na empresa, mas a mente permanece ocupada por preocupações que impedem o desempenho pleno.
Esse é um dos maiores desafios enfrentados pelas organizações atualmente. E, embora tenha múltiplas causas, duas delas vêm ganhando protagonismo: o estresse financeiro e o adoecimento emocional.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que ansiedade e depressão provocam uma perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, gerando um impacto econômico de cerca de US$ 1 trilhão em perda de produtividade.
Os números impressionam, mas talvez não contem toda a história.
Por trás deles existe um trabalhador que passa boa parte do expediente tentando resolver problemas que não estão sobre sua mesa de trabalho. É a prestação do financiamento que venceu, o limite do cartão de crédito que acabou, o empréstimo consignado, a preocupação com as contas do mês. Em casos mais recentes, até o endividamento provocado pelas apostas online.
Quando uma parcela significativa da atenção está direcionada para preocupações financeiras, sobra menos capacidade para resolver problemas, tomar decisões, inovar e se relacionar com colegas e clientes. O resultado aparece na produtividade, na qualidade das entregas e até na segurança operacional em atividades que exigem atenção constante.
Não por acaso, o estresse financeiro começa a ser reconhecido como um dos principais fatores de risco psicossocial dentro das organizações.
A mais recente pesquisa da PwC Employee Financial Wellness Survey mostrou que 59% dos colaboradores afirmam estar estressados com suas finanças neste momento, e que esses profissionais têm maior probabilidade de apresentar queda de produtividade, faltar ao trabalho, procurar outro emprego e relatar piora na saúde mental. Entre os mais jovens, o efeito é ainda mais intenso, 85% da geração Z dizem que o estresse financeiro afeta sua saúde mental, e 71% relatam queda direta na própria produtividade. Embora o levantamento tenha sido realizado nos Estados Unidos, seus resultados ajudam a compreender uma realidade cada vez mais presente também nas empresas brasileiras.
Nos últimos anos, esse cenário ganhou novas perspectivas. O crescimento acelerado das apostas esportivas e dos jogos online ampliou significativamente o número de pessoas convivendo com endividamento, ansiedade e compulsão. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), entre janeiro de 2023 e março de 2026 as apostas provocaram uma perda estimada de R$ 143,8 bilhões para o varejo brasileiro, reduzindo o consumo das famílias e agravando o comprometimento da renda.
Quando esse trabalhador chega à empresa, ele não deixa essas preocupações do lado de fora. Elas entram junto com ele.
É justamente por isso que muitas empresas estão percebendo que investir apenas em benefícios relacionados à saúde mental já não é suficiente. Sessões de terapia, aplicativos de meditação e campanhas de conscientização são iniciativas importantes, mas não resolvem sozinhas problemas estruturais que continuam adoecendo os colaboradores.
A implementação da atualização da NR-1, que amplia o olhar sobre os riscos psicossociais no ambiente de trabalho, reforça essa necessidade. Mais do que oferecer suporte quando o sofrimento já apareceu, as organizações precisam identificar quais fatores estão contribuindo para esse adoecimento.
Nesse contexto, a saúde financeira deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ser uma estratégia de gestão.
Programas de educação financeira, orientação sobre planejamento, incentivo à formação de reserva de emergência e apoio para o enfrentamento do endividamento podem produzir impactos que vão muito além do bolso do colaborador. Eles reduzem a ansiedade, aumentam a sensação de segurança, melhoram a qualidade das decisões e fortalecem o engajamento.
Afinal, pessoas financeiramente mais tranquilas conseguem dedicar mais energia ao trabalho, aos relacionamentos e ao próprio desenvolvimento profissional.
O presenteísmo continuará sendo um desafio para as empresas enquanto olharmos apenas para o comportamento e ignorarmos suas causas.
Talvez o colaborador que parece desmotivado não tenha perdido o interesse pelo trabalho, mas esteja apenas tentando sobreviver a uma realidade financeira que consome sua atenção antes mesmo de iniciar o expediente.
Enfrentar essa epidemia silenciosa exige que empresas, lideranças e profissionais de RH ampliem seu olhar. Porque produtividade não depende apenas de competência técnica.
Ela também depende da capacidade que uma pessoa tem de chegar ao trabalho com a mente verdadeiramente disponível.
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