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24/07/2026 09:12:29

Novas habilidades redesenham o trabalho até 2030

Inteligência artificial, dados e cibersegurança avançam, mas pensamento analítico, criatividade e capacidade de aprender serão decisivos para empresas e profissionais

Autor: Francisco CarlosFonte: Mundo RHLink: https://mundorh.com.br/novas-habilidades-redesenham-o-trabalho-ate-2030/

A transformação do mercado de trabalho não deve ser medida apenas pelo desaparecimento de cargos. Até 2030, cerca de 39% das competências atualmente utilizadas pelos trabalhadores serão modificadas ou ficarão desatualizadas, segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial.

O dado não significa que quase quatro em cada dez habilidades simplesmente deixarão de existir. Parte delas será reformulada, combinada a novos conhecimentos ou aplicada de maneira diferente, especialmente diante do avanço da inteligência artificial, da automação e da digitalização dos negócios.

Essa mudança coloca empresas e lideranças diante de um desafio que ultrapassa a oferta de cursos. Mais do que atualizar conhecimentos pontuais, será necessário preparar as pessoas para aprender continuamente e aplicar novas competências a problemas ainda desconhecidos.

Tecnologia amplia a procura por novas competências

Inteligência artificial e big data lideram a lista das habilidades com crescimento mais acelerado até 2030. Na sequência aparecem redes e cibersegurança e alfabetização tecnológica. Ao mesmo tempo, o Fórum Econômico Mundial destaca a valorização do pensamento criativo, da resiliência, da flexibilidade, da curiosidade e da aprendizagem contínua.

A combinação mostra que o futuro do trabalho não será dividido entre habilidades humanas e tecnológicas. A tendência é que as organizações procurem profissionais capazes de usar ferramentas digitais, interpretar informações, questionar resultados e tomar decisões contextualizadas.

Esse movimento já pode ser observado na formação corporativa. Um recorte do Job Skills Report 2026, da Coursera, apontou crescimento de 617% nas matrículas corporativas em inteligência artificial generativa no Brasil. O levantamento, baseado em cerca de 6 milhões de alunos corporativos de aproximadamente 7 mil instituições, também registrou aumento na procura por pensamento crítico e gestão da mudança, conforme mostrou o Tec Login em reportagem sobre a nova corrida por habilidades.

Os números representam a base da própria plataforma e não todo o mercado de trabalho brasileiro, mas ajudam a identificar uma tendência: aprender a utilizar a IA está deixando de ser uma iniciativa restrita às áreas de tecnologia.

Formação precisa acompanhar o trabalho real

Durante décadas, o desenvolvimento profissional seguiu uma lógica relativamente previsível. A empresa identificava uma lacuna, contratava um treinamento e avaliava a conclusão do curso. Com a redução da vida útil de algumas competências, esse modelo perde efetividade quando não está conectado à aplicação prática.

Para Denise Joaquim Marques, consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing, o principal desafio das lideranças será criar ambientes nos quais a aprendizagem faça parte da rotina, e não apenas das respostas a situações urgentes.

Na avaliação da consultora, duas pessoas expostas ao mesmo conteúdo podem apresentar resultados diferentes porque aprender também depende de curiosidade, autonomia, disposição para experimentar e abertura para revisar decisões. Nesse contexto, a liderança passa a ter responsabilidade direta sobre as condições oferecidas para o desenvolvimento.

Isso envolve reservar tempo para aprender, estimular a troca entre áreas, permitir experimentações controladas e oferecer feedback sobre a aplicação do conhecimento. Também exige segurança para que os profissionais façam perguntas, reconheçam limitações e testem novas maneiras de executar o trabalho.

Saber trabalhar com IA entra nos processos seletivos

A transformação das competências também começa a alcançar recrutamento, promoção e planejamento de carreira. Em vez de procurar somente profissionais que dominem uma ferramenta específica, empresas passam a observar a capacidade de orientar sistemas, conferir respostas e converter informações produzidas por IA em decisões de negócio.

Reportagem do Tec Login mostrou que saber trabalhar com inteligência artificial já começa a influenciar contratações. A exigência, porém, não se limita à operação das plataformas. Conhecimento do negócio, pensamento analítico, proteção de dados, governança e supervisão humana passam a compor o mesmo conjunto de competências.

Para o RH, a mudança recomenda cautela. A capacidade de aprender não deve se transformar em um critério subjetivo baseado apenas na percepção do entrevistador. Projetos realizados, problemas solucionados, mudanças de carreira e evidências recentes de desenvolvimento podem oferecer indicadores mais consistentes sobre o potencial de adaptação de cada candidato.

Diplomas, certificações e experiências anteriores continuarão relevantes. A diferença é que o histórico profissional deverá ser analisado ao lado da capacidade de atualizar conhecimentos e responder a novos contextos.

Interesse não elimina a falta de preparo

Embora parte dos profissionais perceba a IA como oportunidade, ainda existe distância entre experimentar uma ferramenta e incorporá-la ao trabalho de maneira estruturada.

Em pesquisa com 5.569 participantes ligados à base da Hashtag Treinamentos, 70% avaliaram a IA como oportunidade de crescimento profissional. Ao mesmo tempo, 40,8% disseram estar pouco ou nada preparados para as mudanças tecnológicas. O levantamento, analisado pelo Tec Login, também mostrou que pensamento crítico e aprendizagem contínua aparecem entre as competências consideradas mais importantes.

Por ter sido realizada com pessoas já próximas de iniciativas de qualificação, a pesquisa não representa necessariamente toda a população brasileira. Ainda assim, o resultado evidencia um ponto importante: interesse pela tecnologia não equivale automaticamente a preparo para utilizá-la com segurança, profundidade e responsabilidade.

O papel das lideranças

Para responder à mudança, as empresas precisarão mapear não apenas quais cargos podem ser afetados, mas quais tarefas serão automatizadas, ampliadas ou redesenhadas. A partir desse diagnóstico, será possível criar trilhas de desenvolvimento ligadas às demandas reais do negócio.

Líderes também terão de acompanhar indicadores que vão além da quantidade de cursos concluídos. Aplicação do conhecimento, mobilidade interna, redução de erros, autonomia das equipes e capacidade de resolver novos problemas podem oferecer sinais mais concretos sobre a efetividade da aprendizagem.

O Fórum Econômico Mundial estima que, em um grupo de 100 trabalhadores, 59 precisarão de capacitação até 2030. Para as empresas, esperar que essa necessidade se torne urgente pode ampliar custos, dificultar contratações e comprometer processos de transformação.

Nesse cenário, o diferencial não estará apenas em acumular conhecimentos. Organizações e profissionais mais preparados serão aqueles capazes de aprender, testar, revisar e incorporar novas competências antes que as antigas percam relevância. A tecnologia acelera essa transição, mas são a liderança e a cultura organizacional que determinarão se a mudança será convertida em insegurança ou em oportunidade.

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