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Os profissionais mais preparados para a IA talvez não sejam os mais técnicos
Com o avanço da inteligência artificial, empresas começam a discutir quais competências humanas serão diferenciais em um mercado cada vez mais automatizado
Enquanto empresas aceleram investimentos em inteligência artificial (IA) e ampliam programas de capacitação técnica, uma pergunta começa a ganhar espaço entre lideranças de RH: quais competências realmente diferenciam os profissionais em um mercado no qual a tecnologia passa a executar, cada vez melhor, tarefas antes consideradas exclusivamente humanas?
A resposta talvez seja contraintuitiva. Existe uma crença bem-intencionada de que o caminho para preparar as equipes é contratar mais engenheiros, treinar mais pessoas em programação e ampliar trilhas de desenvolvimento voltadas ao uso de ferramentas de IA. Acredito que essa seja uma boa solução, mas não acho que será suficiente para formar os profissionais de que as organizações precisarão nos próximos anos.
Conforme a inteligência artificial evolui tecnicamente, o diferencial competitivo das pessoas tende a migrar para capacidades que a tecnologia ainda não consegue reproduzir da mesma forma: interpretar contextos complexos, navegar na ambiguidade, construir consenso, liderar mudanças, tomar decisões com informações incompletas e estabelecer relações de confiança.
Durante muito tempo, chamamos essas competências de soft skills. Um nome que talvez não faça jus à habilidade e que na era da IA se torna quase inadequado. Isso porque estamos falando das habilidades mais difíceis de desenvolver. São mais complexas de avaliar e, cada vez mais, extremamente valiosas para organizações que operam em ambientes de transformação constante.
Os dados já mostram esse movimento. O relatório LinkedIn Skills on the Rise 2026, que analisou as habilidades com maior crescimento em contratação ao longo do último ano, aponta simultaneamente para a valorização de competências ligadas à inteligência artificial e habilidades como comunicação com stakeholders, liderança, gestão de pessoas e desenvolvimento de relacionamentos.
O mercado parece já ter entendido que capacidades técnicas e humanas deixaram de competir entre si e passaram a ser complementares.
Os desafios do RH (com ou sem a IA)
Outro estudo, o LinkedIn Talent Velocity Advantage Report 2026, ajuda a explicar esse fenômeno. Segundo o levantamento, empresas mais avançadas na adoção de IA apresentam uma vantagem de 33 pontos percentuais em segurança psicológica quando comparadas às demais organizações. Não é coincidência: ambientes em que as pessoas se sentem confortáveis para experimentar, compartilhar dúvidas e aprender continuamente criam condições muito mais favoráveis para que a inteligência artificial gere impacto real nos negócios.
É exatamente isso que tenho observado na prática, acompanhando empresas em diferentes estágios de adoção da IA. Os profissionais que mais prosperam não são necessariamente os que dominam todas as ferramentas disponíveis, mas sim aqueles que fazem as perguntas certas, conseguem traduzir o que a tecnologia produz para a realidade do negócio, transitam com facilidade entre diferentes áreas e mantém capacidade de adaptação diante de mudanças constantes. A inteligência artificial amplia o potencial desses profissionais porque eles sabem interpretar, contextualizar e transformar informação em decisão.
Esse cenário coloca o RH diante de dois desafios que, na minha visão, precisam de urgência. O primeiro é de seleção: os critérios que funcionavam para identificar talentos em um mercado mais estável já não dão conta de um ambiente em transformação permanente. Um currículo tecnicamente impecável diz pouco sobre como essa pessoa vai reagir quando o processo que ela dominava for automatizado em seis meses, e esse prazo está ficando cada vez mais curto.
O segundo desafio está no desenvolvimento. Pensamento crítico, colaboração e adaptabilidade não se constroem com e-learning passivo. Não se desenvolve tolerância à ambiguidade em culturas que punem o erro. E não se cria capacidade de colaboração entre áreas em estruturas que operam em departamentos. Essas competências dependem de cultura, liderança e ambientes onde experimentar, aprender e errar fazem parte da rotina, não de treinamento pontual.
Tecnologia não substituirá competências humanas
Esse, para mim, é o maior paradoxo que a IA trouxe para o mundo do trabalho. A tecnologia não diminui a importância das competências humanas, ela as torna ainda mais estratégicas. Quanto mais a IA assume o que é previsível e operacional, maior passa a ser o valor do que permanece exclusivamente humano.
Por isso, quando me perguntam o que o RH deveria estar fazendo agora em relação à IA, minha resposta começa sempre pelo mesmo lugar: antes de escolher a próxima ferramenta, olhe para o time. Os questionamentos sobre quais competências as organizações precisam desenvolver para operar bem com IA não são perguntas técnicas. Na verdade, são as mais estratégicas de gestão de pessoas que existem hoje. E quem não estiver respondendo vai encontrar a conta chegando mais cedo do que espera.
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