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Ansiedade vira barreira quando o medo impede aprender
A ansiedade não é o problema. O problema é quando ela nos impede de aprender
Uma reflexão inspirada na palestra do professor Roberto Alves Banaco, realizada no Laboratório de Estudos e Aplicados à Aprendizagem e Cognição (LEAAC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Vivemos um tempo em que a ansiedade se tornou uma das palavras mais presentes nas conversas sobre saúde mental, educação e trabalho. Ela aparece nas escolas, nas empresas, nas universidades e até nas relações familiares. Entretanto, talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Em vez de perguntar como eliminar a ansiedade, talvez devêssemos perguntar por que ela existe e, principalmente, quando ela deixa de proteger para começar a limitar o desenvolvimento humano.
Essa reflexão ganhou ainda mais força durante a palestra ministrada pelo professor Roberto Alves Banaco, no Laboratório de Estudos e Aplicados à Aprendizagem e Cognição (LEAAC), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), quando apresentou uma perspectiva que desafia muitas concepções populares sobre o tema: a ansiedade não representa um defeito do organismo. Ela é resultado de um sofisticado processo evolutivo que aumentou nossas chances de sobrevivência diante de situações potencialmente perigosas.
Esse ponto muda completamente nossa compreensão.
O organismo humano não foi selecionado para proporcionar conforto permanente. Foi selecionado para sobreviver.
Por isso, diante da percepção de ameaça, surgem respostas como aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da tensão muscular, hipervigilância, sudorese e preparação para fugir ou enfrentar a situação. Durante milhares de anos, essas respostas aumentaram a probabilidade de sobrevivência da espécie.
O desafio surge quando o organismo passa a responder da mesma maneira diante de uma reunião importante, de uma apresentação para a equipe, de uma prova, de um feedback do gestor ou da necessidade de tomar uma decisão complexa.
Nesses momentos, a ameaça deixa de ser física e passa a ser simbólica.
É exatamente aí que a ansiedade pode deixar de cumprir sua função adaptativa e passar a restringir a aprendizagem, a criatividade e o desenvolvimento profissional.
Banaco destacou que a ansiedade clínica não se caracteriza apenas pelas respostas fisiológicas, mas pelo impacto que essas respostas produzem sobre a qualidade de vida, especialmente quando levam a padrões persistentes de esquiva, comprometendo o funcionamento ocupacional, acadêmico e social.
E talvez seja justamente a esquiva o conceito mais importante para compreendermos muitos dos problemas atuais nas organizações e nas escolas.
Sempre que evitamos uma situação que gera ansiedade, experimentamos um alívio imediato.
Adiamos aquela conversa difícil.
Deixamos para depois a apresentação.
Recusamos uma oportunidade de liderança.
Evitamos fazer perguntas durante uma reunião.
Desistimos de aprender uma nova habilidade.
Esse alívio imediato funciona como um poderoso reforçador.
O organismo aprende rapidamente que fugir reduz o desconforto.
O problema é que, ao reforçar a fuga, reduzimos também nossas oportunidades de aprendizagem.
Cada comportamento de esquiva fortalece a probabilidade de novas esquivas.
Pouco a pouco, não cresce apenas a ansiedade.
Diminui também o repertório comportamental disponível para enfrentar desafios.
Essa compreensão dialoga diretamente com pesquisas sobre ansiedade matemática desenvolvidas no Brasil, que mostram que o desempenho nem sempre é prejudicado pela falta de capacidade, mas frequentemente pela presença de respostas de fuga e esquiva diante de situações que envolvem matemática.
Esse mecanismo aparece diariamente nas organizações.
Profissionais altamente qualificados evitam assumir cargos de liderança.
Gestores adiam feedbacks importantes.
Equipes resistem às mudanças.
Colaboradores deixam de apresentar ideias inovadoras por receio de errar.
Na educação, estudantes deixam de participar das aulas, evitam responder questões e passam a acreditar que “não nasceram para aprender”.
Em muitos desses casos, não é a ausência de competência que limita o desempenho.
É a aprendizagem da esquiva.
Outro aspecto discutido por Banaco diz respeito às diferenças individuais na sensibilidade aos estímulos ambientais.
Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade à punição, percebendo riscos e ameaças com maior intensidade.
Outras apresentam maior sensibilidade ao reforçamento e tendem a buscar desafios e oportunidades.
Essa diferença ajuda a compreender por que duas pessoas submetidas às mesmas condições organizacionais podem reagir de maneiras completamente distintas.
O mesmo feedback pode ser interpretado por um profissional como oportunidade de crescimento e, por outro, como confirmação de incompetência.
A mesma mudança pode representar inovação para alguns e ameaça para outros.
Essa constatação produz uma importante provocação para gestores e líderes.
Ainda existem organizações estruturadas sobre culturas de controle, punição e medo do erro.
No curto prazo, esses ambientes podem produzir conformidade.
No longo prazo, produzem silêncio, redução da criatividade, menor inovação e menor capacidade de aprendizagem.
As pessoas continuam comparecendo ao trabalho.
Mas deixam de emitir seus melhores comportamentos.
Na educação, esse raciocínio também encontra forte sustentação.
Banaco recuperou uma ideia histórica de Carolina Bori, que permanece extremamente atual: enquanto o aluno não aprendeu, o trabalho do ensino ainda não terminou.
Essa afirmação desloca completamente o foco da culpa.
O erro deixa de ser evidência do fracasso do estudante e passa a ser uma informação valiosa sobre aquilo que ainda precisa ser ensinado.
Esse princípio aproxima-se de uma das maiores contribuições da Análise do Comportamento para a educação: ensinar significa organizar contingências que favoreçam a aprendizagem, e não selecionar aqueles que já conseguem aprender sozinhos.
Nas empresas, a lógica é semelhante.
Organizações inovadoras não eliminam os erros.
Elas eliminam o medo de aprender.
Criam ambientes em que experimentar, receber feedback, corrigir rotas e tentar novamente fazem parte do próprio processo de desenvolvimento.
Essa perspectiva também encontra respaldo em um clássico estudo de Estes e Skinner, apresentado por Banaco durante sua exposição. Os autores demonstraram que estímulos associados à ameaça podem reduzir significativamente a emissão de comportamentos previamente aprendidos, fenômeno conhecido como supressão condicionada.
Em linguagem organizacional, isso significa algo extremamente relevante.
Ambientes governados pelo medo diminuem precisamente os comportamentos que as organizações mais desejam estimular: iniciativa, colaboração, criatividade, inovação e resolução de problemas.
Talvez esse seja um dos maiores desafios contemporâneos para a gestão de pessoas e para a educação.
Não basta investir em programas de saúde mental se as contingências do ambiente continuam reforçando a esquiva.
Não basta incentivar inovação se o erro continua sendo tratado como fracasso.
Não basta cobrar aprendizagem se o ambiente torna aprender uma experiência aversiva.
O verdadeiro diferencial competitivo das organizações e das instituições educacionais talvez esteja na capacidade de construir contextos onde aprender seja mais reforçador do que evitar.
Onde perguntar seja mais seguro do que fingir saber.
Onde o feedback seja percebido como oportunidade de crescimento.
Onde desafios representem desenvolvimento, e não ameaça.
Porque, no final, a ansiedade não é nossa inimiga.
Ela apenas informa que algo importante está em jogo.
A diferença entre crescer e permanecer preso às mesmas limitações está menos na presença da ansiedade e muito mais na forma como construímos ambientes que permitam enfrentá-la, aprender com ela e seguir em frente.
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