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Empresas aceleram uso da IA, mas ainda enfrentam descompasso na gestão
Líderes planejam futuro com IA, mas equipes enfrentam desafios básicos e insegurança, revelando a falta de alinhamento nas empresas
Não mais uma promessa, a inteligência artificial (IA) é uma força concreta de reorganização do trabalho em plena operação. Apesar disso, há um claro distanciamento entre o que acontece no dia a dia e o que é discutido e planejado pelas lideranças de alto escalão.
No Brasil, a discussão segue em torno de uma dicotomia simplista entre ganhos de produtividade e substituição em massa de empregos. O que está em curso, porém, é mais silencioso e estrutural: uma mudança na forma como o trabalho é desenhado, valorizado e distribuído dentro das organizações e entre elas.
Se, de um lado, os líderes falam sobre produtividade exponencial, agentes autônomos, transformação cultural e reinvenção organizacional, de outro, as equipes ainda convivem com problemas básicos de comunicação, excesso de informação, retrabalho, falta de clareza operacional e a insegurança sobre a existência futura de suas atividades e de seus empregos.
Segundo o relatório State of AI 2025, da McKinsey, quase 90% das empresas já utilizam inteligência artificial em alguma função do negócio. Apesar disso, a adoção acelerada não significa necessariamente maturidade organizacional nem ganhos sobre a receita ou o lucro.
Ao mesmo tempo, um estudo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, em parceria com as fundações Grupo Volkswagen e Arymax, revela que até 37% dos trabalhadores brasileiros podem ser impactados pela inteligência artificial. O número não se limita à automação de funções, mas aponta para um efeito mais amplo que envolve reorganização de tarefas, redefinição de cargos e transformação das habilidades exigidas.
Para a CEO da Workhub – HR Tech especializada em intranets e portais corporativos por assinatura -, Andréa Migliori, um erro crasso cometido pelas empresas é acreditar que tecnologia corrige a desorganização interna.
“Ainda estamos na fase de deslumbre, sem saber muito bem o que fazer. O problema é que as empresas sabem que têm que usar a inteligência artificial, mas não sabem como. Muitas estão olhando para tudo isso como um movimento só de tecnologia, mas existe uma parcela de comportamento igual ou maior do que a de tecnologia. Não adianta tentar encaixar o novo em um modelo antigo. Em muitas organizações, a IA começou de uma forma difusa e as empresas se deram conta depois. Teve até empresa proibindo. As empresas precisam se organizar com segurança da informação de cima para baixo e olhar o que as pessoas já entenderam de baixo para cima”, afirma Andréa Migliori.
Tudo isso acontece em um cenário em que a mão de obra enfrenta um déficit importante de habilidades digitais básicas. Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) indicam que apenas 21,3% dos brasileiros possuem competências elementares, como enviar um e-mail, por exemplo.
Para o CEO da Alymente – HR Tech de gestão de benefícios corporativos -, André Purri, o contraste evidencia um descompasso entre a velocidade da transformação tecnológica e a base de qualificação disponível no mercado de trabalho.
“Isso significa que o trabalho deixa de ser avaliado apenas pelo que executa e passa a ser medido pelo quanto consegue se adaptar a sistemas cada vez mais mediados por tecnologia. A consequência é menos visível do que uma demissão em larga escala, mas potencialmente mais estrutural”, avalia Purri.
Dados da PwC Brasil divulgados em 2025, mostram que 69% dos CEOs planejam investir na integração de IA com plataformas tecnológicas nos próximos 12 meses. No entanto, um estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology) apontou que 95% das implementações corporativas de inteligência artificial generativa não geram impacto mensurável sobre receita ou lucro, indicando que o principal desafio não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é incorporada às operações das organizações.
Para os especialistas, para reduzir a distância entre o que é planejado pela alta liderança e o que efetivamente acontece na operação, as empresas precisam transformar a inteligência artificial em uma pauta de cultura organizacional. Isso inclui revisão de processos, comunicação interna mais contextualizada, desenvolvimento contínuo de lideranças e clareza sobre o que muda e o que continua humano dentro das organizações.
“A empresa que conseguir extrair valor real da inteligência artificial não será necessariamente a que tiver a ferramenta mais avançada, mas a que conseguir alinhar liderança, comunicação e operação na mesma direção”, pontua a CEO da Workhub.
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