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Antes do propósito, a realidade: geração do “faça o que ama” agora pensa nos boletos
O emprego estável voltou a ficar moderno — e os jovens estão ajudando a explicar por quê
Durante boa parte das últimas duas décadas, os jovens foram incentivados a buscar propósito, paixão e realização profissional.
Livros, palestras, redes sociais e gurus de carreira repetiam a mesma mensagem: encontre o que você ama fazer e o sucesso virá como consequência.
Mas dados de pesquisas recentes sugerem que uma geração criada sob esse discurso começa a fazer uma revisão pragmática das próprias prioridades.
Em vez de correr atrás da carreira perfeita, muitos jovens parecem preocupados com algo mais básico: estabilidade financeira, previsibilidade e segurança para planejar o futuro.
A mudança não significa falta de ambição. Pelo contrário.
Os sonhos continuam existindo. O problema é que eles passaram a conviver com um cenário econômico, tecnológico e profissional muito mais incerto do que aquele imaginado pelas gerações anteriores.
Em suma: a realidade bateu à porta, com seus boletos e responsabilidades.
Carreira continua no topo dos sonhos
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva apresentada durante o 3º Encontro de Educação Financeira ajuda a entender essa transformação.
O levantamento mostra que carreira é o principal sonho dos adolescentes brasileiros, citada por 30% dos entrevistados.
Em seguida aparecem o desejo de ser bem-sucedido (10%), faculdade e estudos (6%), realização profissional e pessoal (6%) e estabilidade financeira (5%). Casamento e família também aparecem com 5% das respostas.
O resultado desmonta uma ideia recorrente de que as novas gerações estariam menos interessadas em trabalho ou crescimento profissional.
Elas continuam valorizando a carreira. Mas existe um detalhe importante.
A mesma pesquisa mostra que 54% dos adolescentes consideram difícil fazer planos para o futuro.
A combinação dos dois dados revela uma geração que continua sonhando alto, mas que enxerga o caminho até esses sonhos com muito mais incerteza.
Estabilidade voltou ao centro da conversa
Essa percepção aparece também entre profissionais que já entraram no mercado de trabalho.
A pesquisa Global Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte, mostra que questões financeiras vêm influenciando decisões importantes de carreira.
Segundo o estudo, 55% dos profissionais da Geração Z e 52% dos millennials afirmam ter adiado metas pessoais ou profissionais por razões econômicas.
“Os jovens estão optando por sequenciar a ambição, investindo em habilidades, estabilidade e bem-estar antes de se comprometer com caminhos que possam se mostrar insustentáveis”, comenta Roberta Yoshida, sócia-líder de Human Capital e People & Purpose da Deloitte.
O dado ajuda a explicar uma mudança silenciosa nas prioridades.
Durante muito tempo, a ideia de estabilidade foi associada a comportamentos considerados conservadores ou pouco ousados.
Em muitos círculos profissionais, trocar de emprego frequentemente, mudar de cidade ou assumir riscos era visto como sinal de ambição.
Agora, a estabilidade parece ter recuperado valor.
Não porque os jovens tenham se tornado menos ambiciosos, mas porque a volatilidade do cenário econômico passou a fazer parte da experiência cotidiana.
“A mudança não reside na quantidade de pessoas que almejam o cargo de liderança, mas na escolha do momento da vida para persegui-lo”, diz Roberta Yoshida.
Futuro ficou mais difícil de prever
As dúvidas não se limitam à economia.
A inteligência artificial também entrou na lista de preocupações das novas gerações.
O estudo Vozes da Geração Z: o paradoxo da IA, analisado pela Cratvs e pela Juntxs, mostrou que 48% dos jovens acreditam que habilidades relacionadas à inteligência artificial serão essenciais para suas futuras carreiras.
Ao mesmo tempo, o entusiasmo em relação à tecnologia diminuiu. A confiança na IA caiu, enquanto aumentaram sentimentos de preocupação e incerteza sobre os impactos da tecnologia no mercado de trabalho.
Os dados sugerem que muitos jovens estão construindo seus projetos profissionais sem clareza sobre quais habilidades serão valorizadas nos próximos anos ou quais profissões terão maior demanda.
Em outras palavras, planejar o futuro ficou mais complicado justamente para a geração que cresceu sendo incentivada a pensar grande.
Questionamentos pelo caminho
A transformação não significa que os jovens abandonaram o desejo de crescer. Ela significa que crescer passou a envolver novas perguntas.
Vale a pena trocar de emprego por um salário maior e abrir mão de qualidade de vida? Vale a pena assumir uma promoção que aumenta a renda, mas reduz o tempo livre? Vale a pena seguir um propósito profissional sem ter segurança financeira?
Essas questões aparecem de forma indireta em diversos estudos recentes sobre trabalho, carreira e comportamento.
Pesquisas da Deloitte mostram que saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e segurança financeira ganharam espaço entre as prioridades da Geração Z e dos millennials.
Outros levantamentos indicam que flexibilidade, bem-estar e previsibilidade passaram a influenciar decisões de carreira tanto quanto remuneração e status.
Sonho continua, mas sem pressa para acontecer
Por muito tempo, construir uma carreira foi visto como uma sequência relativamente previsível de etapas: estudar, trabalhar, crescer profissionalmente e, depois, colher os resultados.
Mas a geração que ingressa hoje no mercado de trabalho encontrou um cenário diferente.
Entre contas a pagar — aluguel, água, luz, condomínio, internet —, transformações tecnológicas aceleradas e incertezas econômicas, o futuro passou a exigir cálculos que seus pais também precisaram fazer.
A nova geração continua interessada em propósito, realização e crescimento profissional. Mas passou a enxergar essas conquistas como etapas de um projeto maior de estabilidade e segurança.
O sonho não desapareceu. Apenas deixou de ocupar o primeiro lugar na fila.
Antes do propósito, vem o boleto. E, para uma parcela crescente dos jovens, pagar o aluguel em dia parece ser o primeiro passo para todo o resto.
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