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IA avança mais rápido que escritórios e cria riscos invisíveis para negócios
Falta de estratégia para uso da tecnologia no ambiente jurídico abre brechas para problemas legais devido ao uso informal pelos profissionais, mostra pesquisa
A inteligência artificial já conquistou espaço indiscutível no cotidiano de advogados, contadores e especialistas em compliance. O problema é que muitas empresas ainda não conseguiram acompanhar essa transformação. Depois de uma primeira fase marcada por experimentação e testes e de uma segunda etapa focada na incorporação da tecnologia, um novo desafio começa a surgir com a distância entre o uso individual da IA e a capacidade das organizações de transformá-la em ferramenta efetiva de produtividade.
É essa a principal conclusão do relatório Future of Professionals 2026, divulgado nesta segunda-feira (22) pela Thomson Reuters. A pesquisa, realizada com 1.800 profissionais das áreas jurídica, tributária, contábil e de gestão de riscos, mostra que a adoção da tecnologia avançou rapidamente, mas a implementação corporativa segue atrasada.
Enquanto isso, 74% dos profissionais já utilizam inteligência artificial, mesmo que não oficial, diariamente em seu trabalho, como mostra o levantamento. Cerca de 91% dos profissionais também acreditam que suas organizações estão longe de explorar todo o potencial da tecnologia.
“Estamos vendo surgir uma divisão clara entre escritórios que estão operacionalizando a IA e os que não estão e já começam a assumir riscos reais, tanto entre seus talentos como entre os clientes, podendo comprometer até o desempenho financeiro”, afirma o presidente e CEO da Thomson Reuters, Steve Hasker.
Nova etapa
O cenário representa uma evolução em relação ao que vinha sendo observado nos últimos anos. Um estudo anterior da própria Thomson Reuters já indicava que a IA havia deixado de ser uma tendência para se tornar parte da rotina dos escritórios. Na ocasião, quase metade dos profissionais jurídicos latino-americanos afirmava utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa, enquanto os clientes passavam a cobrar ganhos concretos de produtividade e eficiência.
Agora, a discussão evoluiu. A questão não é mais sobre o acesso à tecnologia, mas a capacidade das empresas de incorporá-la de forma estruturada e segura. Mesmo entre organizações que possuem estratégias formais para IA, 35% dos profissionais afirmam que os objetivos anunciados pela liderança não se refletem no trabalho diário. Outros 20% dizem que suas empresas sequer possuem uma estratégia clara para a tecnologia. Tudo isso, abre espaço para o uso individual desordenado.
Inovação fora do controle
Uma das consequências mais preocupantes desse atraso é o crescimento do chamado Shadow AI, segundo a Thomson Reuters. O termo descreve o uso de ferramentas de inteligência artificial não autorizadas ou não supervisionadas pelas empresas. Segundo a pesquisa, um terço dos profissionais já utiliza soluções de IA fora dos ambientes corporativos aprovados. Entre aqueles que consideram suas organizações lentas na adoção tecnológica, esse percentual chega a 41%.
O fenômeno revela uma contradição. Enquanto 96% dos entrevistados afirmam que a IA precisa proteger informações confidenciais e 94% exigem conteúdo confiável e verificável, 41% dizem não ter acesso a ferramentas corporativas que atendam a esses requisitos. Na prática, profissionais acabam recorrendo a soluções externas para ganhar produtividade, criando riscos que muitas empresas sequer conseguem monitorar sobre as informações.
Clientes estão mais exigentes
A pressão não vem apenas da área de tecnologia. Segundo a pesquisa, 78% dos clientes corporativos consideram essencial ou muito importante que seus fornecedores entreguem melhorias de qualidade impulsionadas por inteligência artificial. O problema é que apenas 6% acreditam que a maioria dos escritórios e consultorias já consegue oferecer esse diferencial.
A consequência aparece nos números. Cerca de 32% dos clientes afirmam que pretendem reavaliar seus fornecedores nos próximos 12 meses. Nos mercados jurídico e contábil dos Estados Unidos, a Thomson Reuters estima que aproximadamente US$ 143 bilhões em receitas estejam sujeitos à revisão por esse motivo.
A mesma pressão aparece na gestão de pessoas. Entre os profissionais que enxergam uma lacuna entre a promessa da IA e a realidade do que já está disponível, 24% afirmam considerar uma mudança de emprego nos próximos dois anos. Para 62%, o acesso a ferramentas profissionais de inteligência artificial influencia a decisão de aceitar uma proposta de trabalho. O dado sugere que a IA deixou de ser apenas um instrumento de produtividade para se tornar também um fator de atração e retenção de talentos, conforme o estudo.
Diferencial
Para especialistas, os mercados jurídico, tributário e contábil estão entrando em uma nova fase da transformação digital. Se 2023 foi o ano da descoberta, 2024 o período dos testes e 2025 o momento da adoção, 2026 marca o início da cobrança por resultados concretos. A tecnologia já existe. Os profissionais já aprenderam a utilizá-la. Os clientes já passaram a exigir seus benefícios.
O desafio agora é transformar inteligência artificial em estratégia de negócios, mas com segurança. Quem conseguir fazer essa transição tende a ganhar eficiência, mas quem permanecer preso à fase experimental corre o risco de perder o controle sobre informações, de acordo com a Thomson Reuters.
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