Em reunião do Caeft da ACSP, tributaristas convidados abordam os aspectos práticos da Lei 15.270, que já tem pontos contestados no Judiciário
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IA sem governança pode transformar produtividade em risco para o RH
Empresas precisam criar regras claras para evitar vazamento de dados, decisões sem controle e uso inseguro da inteligência artificial
A inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta restrita às áreas de tecnologia. Hoje, profissionais de marketing, finanças, jurídico, atendimento, operações e recursos humanos já conseguem criar textos, automatizar tarefas, gerar relatórios, estruturar fluxos e até desenvolver protótipos de sistemas utilizando comandos simples em linguagem natural.
Esse movimento acelera a produtividade, amplia a criatividade e reduz barreiras técnicas. Ao mesmo tempo, cria uma nova preocupação para as empresas: o uso descontrolado da IA pelos colaboradores, sem regras claras, validação técnica ou proteção adequada dos dados.
Para Mateus Magno, CEO da Magnotech e especialista em inteligência artificial aplicada aos negócios, esse cenário exige uma mudança de postura das organizações e coloca o RH em uma posição estratégica. Segundo ele, a governança da inteligência artificial não pode ser vista apenas como responsabilidade da tecnologia. O tema também envolve cultura organizacional, comportamento, gestão de pessoas, segurança e produtividade.
Um dos fenômenos que mais simbolizam essa nova fase é o chamado “vibe coding”. O conceito descreve uma forma de programar em que a pessoa explica, em linguagem natural, aquilo que deseja criar e deixa a inteligência artificial gerar o código. O resultado é aceito muitas vezes pela percepção de que parece funcionar, sem que exista compreensão completa sobre o que foi produzido.
Na prática, esse modelo abre portas para que profissionais de diversas áreas criem soluções rapidamente. Um analista pode montar uma automação, um gestor pode testar um fluxo de atendimento e uma equipe pode validar uma ideia em poucos minutos. A velocidade chama a atenção. De acordo com Mateus Magno, a IA assistida pode reduzir o tempo de desenvolvimento de automações entre 60% e 70%.
O problema surge quando a velocidade passa a substituir o critério. A mesma ferramenta capaz de criar uma solução rapidamente também pode colocar sistemas em funcionamento com falhas de segurança, acesso inadequado a informações ou exposição de dados sensíveis.
Para o RH, o alerta ganha proporções ainda maiores. O uso da inteligência artificial não está restrito a tarefas operacionais. Ele já alcança processos seletivos, avaliações de desempenho, comunicação interna, gestão de carreira, folha de pagamento e decisões relacionadas aos colaboradores.
Sem governança, organizações podem acabar compartilhando informações sensíveis sem perceber. Dados pessoais, avaliações internas, históricos profissionais e até informações de saúde podem ser inseridos em ferramentas externas sem qualquer controle.
É nesse contexto que cresce o chamado “shadow AI”, uma evolução do conhecido “shadow IT”. Antes, o risco estava em softwares instalados sem autorização. Agora, o problema pode surgir quando um colaborador utiliza ferramentas de inteligência artificial não aprovadas pela empresa para acelerar entregas e resolver problemas do dia a dia.
Segundo Mateus Magno, o ponto mais delicado é que, na maioria dos casos, não existe má-fé. Normalmente trata-se de profissionais tentando ganhar agilidade e melhorar resultados. Por isso, proibir simplesmente não resolve o problema. O caminho mais eficiente é oferecer alternativas seguras, homologadas e acompanhadas pela empresa.
Entre os dados mais vulneráveis estão informações protegidas pela LGPD, como CPF, dados de saúde, folha salarial, avaliações de desempenho, processos disciplinares, contratos, informações estratégicas e propriedade intelectual.
No caso do RH, o cuidado precisa ser ainda maior porque a área trabalha diariamente com dados que impactam diretamente a vida das pessoas e decisões que exigem critérios claros e responsabilidade.
Para minimizar riscos, especialistas defendem a criação de políticas formais de uso da inteligência artificial. Não basta enviar um comunicado interno. É necessário estabelecer regras oficiais que classifiquem informações, definam quais ferramentas podem ser utilizadas e indiquem limites claros para cada área.
Mateus Magno também destaca que o RH terá papel decisivo na preparação das equipes. O objetivo não é transformar todos os profissionais em especialistas técnicos, mas garantir que cada colaborador saiba o que pode fazer, o que não pode fazer e quais riscos estão envolvidos.
Outro desafio importante será o redesenho de cargos e trilhas de desenvolvimento. Com a inteligência artificial assumindo tarefas repetitivas, habilidades como pensamento crítico, análise, julgamento e tomada de decisão ganham ainda mais valor.
Para decisões que afetam pessoas, a recomendação é manter a presença humana obrigatória. Contratações, desligamentos, promoções, avaliações de desempenho e outras decisões sensíveis não devem depender exclusivamente de sistemas automatizados.
A inteligência artificial pode acelerar processos e abrir novas possibilidades de crescimento. Mas, para o RH, o desafio será garantir que a tecnologia não avance mais rápido do que a capacidade das empresas de orientar pessoas, proteger dados e construir uma cultura responsável. O futuro da IA não será definido apenas pela tecnologia disponível, mas pela forma como as organizações escolherão utilizá-la.
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