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Juros acima de 1% ao mês: como garantir esse ganho antes que acabe
Com a expectativa de cortes na taxa básica a partir do primeiro trimestre de 2026, investidores devem se antecipar para garantir rentabilidade elevada em títulos públicos e privados
Os juros acima de 1,0% ao mês estão com os dias contados e o investidor já deve começar a se movimentar para garantir por mais tempo as altas taxas atuais. A estimativa é de que o Banco Central comece a cortar sua taxa básica Selic, hoje de 15% ao ano, no primeiro trimestre do ano que vem. Parece longe, mas os mercados antecipam os ciclos de cortes e o investidor deve fazer o mesmo.
É possível travar a rentabilidade extraordinária oferecida por alguns papéis de renda fixa por vários anos e até décadas antes que voltem ao normal para uma economia que deve rodar com uma inflação perto dos 3,0% ao ano, meta do BC. Para o ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, “chairman” da gestora Jive-Mauá, alongar os investimentos, principalmente na renda fixa, faz sentido diante da proximidade do início do ciclo de cortes “O Banco Central deve começar a reduzir os juros entre janeiro e março”, estima.
Juro permite dobrar a aplicação em dez anos
Os ganhos da renda fixa mais longa podem ser garantidos em papéis do governo, no Tesouro Direto, ou de empresas e bancos, que oferecem ainda, em alguns casos, a vantagem da isenção de impostos, como as debêntures incentivadas, as Letras de Crédito Imobiliário, as LCIs, e as do Agronegócio, ou LCAs.
No Tesouro Direto, os títulos públicos corrigidos pelo IPCA, os títulos Tesouro IPCA+, também conhecidos por seu antigo nome, Notas do Tesouro Nacional – Série B, ou NTN-Bs, com vencimento em 2029 pagavam 7,9% ao ano além da inflação oficial, um retorno equivalente a 25,6% reais em três anos. Já a NTN-B para 2035, que paga 7,5% ao ano, garantiria um ganho acima da inflação de 106% em dez anos, o equivalente a mais que dobrar o valor aplicado em termos reais no período.
Longo prazo
Quem não precisar do dinheiro por muito tempo pode pensar em garantir um rendimento acima da inflação de 6,89% ao ano no Tesouro IPCA+ 2050, o que daria um retorno real de 428% em 25 anos, ou de 7,12% no papel para 2060, o que equivaleria a 1.010% em 35 anos, dez vezes o valor original.
Se a escolha for por papéis prefixados do Tesouro, os títulos Tesouro Prefixado (também chamados de Letra do Tesouro Nacional, ou LTN), para janeiro 2028 pagava nesta semana 13,0% ao ano, o que significaria no período de dois anos cerca de 28% de ganho total. E, dependendo do sangue frio, há os títulos do Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (antes chamados de Nota do Tesouro Nacional – Série F), também prefixada, mas que oferece juros semestrais, com vencimento em janeiro de 2035 e taxa prefixada de 13,71% ao ano, o que representaria ganho total de 217% em nove anos.
O investidor deve, porém, evitar ser muito ambicioso arriscando uma parcela muito grande de seu patrimônio em um título longo apenas. Até porque, quanto maior o prazo, maior a oscilação dos preços desses papéis no mercado quando os juros mudam.
Se for necessário resgatar o dinheiro antes do vencimento e o juro estiver mais alto do que na época da aplicação, haverá prejuízo, já que valor do título vai no sentido contrário das taxas de mercado. Em um cenário otimista, porém, os juros longos devem cair e o valor desses papéis subiria, trazendo ganhos para o investidor que alongou. O ideal, contudo, sugerem especialistas, é sempre aplicar em prazos nos quais se possa levar o título até o vencimento, evitando os riscos das flutuações de mercado.
Mudança de rumo e janela de oportunidade
Os ciclos de corte nos juros trazem oportunidades de ganhos extras em papéis de renda fixa prefixados ou atrelados à inflação ou até na bolsa, mas isso não quer dizer que o investidor agora deve colocar tudo nesses ativos, explica Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP. “Até porque, ao ficar em uma só aplicação, ele pode perder potenciais ganhos em outras estratégias”, lembra. O investidor também não deve esperar a queda da Selic para começar para se mexer.
O ideal, avaliam especialistas, é se antecipar e aproveitar a janela de oportunidade atual para montar um mix de papéis de renda fixa públicos ou privados, prefixados ou corrigidos pelo IPCA, de prazos e emissores diferentes, reduzindo a parcela em CDI. Até porque, segundo Rachel, em prazos mais longos, acima de três anos, os títulos indexados ao IPCA já se saem melhor que o CDI, segundo estudo da XP.
A estrategista de investimentos também alerta o investidor a não alongar muito os prazos na renda fixa para evitar oscilações muito fortes de preços com a chamada marcação a mercado. Segundo Rachel, uma variação de 1 ponto porcentual na taxa Selic pode ter um impacto de até 1,2% em uma carteira de papéis longos corrigidos pelo IPCA, usando como referência o índice IMA-B 5+, que reúne os preços de todos os títulos públicos com mais de cinco anos. Nos papéis com menos de cinco anos, o impacto seria de 0,40%.
A sugestão de Rachel para reduzir as oscilações é procurar papéis de vários prazos, de preferência isentos e de empresas sólidas, garantindo um vencimento médio, o chamado “duration”, mais curto.
“Recomendamos papéis atrelados ao IPCA de até cinco ou seis anos e prefixados de dois a três anos, mas é possível ter papéis mais longos desde que misturados com mais curtos para reduzir a volatilidade total da carteira”, explica. Para um investidor com perfil moderado, a recomendação é ainda manter 32% da carteira em pós-fixados, CDI ou Selic, 22,5% em títulos corrigidos pela inflação e 10% em prefixados.
Para garantir uma diversificação, a parcela sugerida em renda variável seria de 7,5% da carteira. A primazia da renda fixa, portanto, deve continuar ainda por um bom tempo, avalia Dalton Gardiman, economista-chefe da Ágora Corretora.
Ele estima que o juro Selic pode cair no ano que vem dos atuais 15,0% ao ano para 12,0% em dezembro, o que equivaleria a uma taxa média em torno de 13,5% ao ano, ainda bastante alta, reflexo do problema fiscal do governo, que não deve ser resolvido em 2026, ano eleitoral. “Quando olhamos as máximas de juros do passado recente, 13,75% em 2008, 14,25% no governo Dilma Rousseff, 13,75% em 2022, temos um juro médio para 2026 muito próximo desses picos, e é muito ganho para o investidor, seja em prefixado, IPCA mais juros ou CDI”, diz.
Risco maior nos prefixados
Gardiman vê os juros prefixados como convidativos, mas mais arriscados para o investidor diante das incertezas com as contas públicas, com a inflação e com o dólar, que neste ano ajudou a controlar os preços. “Tem muito juro real no pré, mas também muito risco fiscal”, diz.
Por isso, as preferências dele são para papéis indexados ao IPCA, especialmente os isentos. “O investidor fica protegido da inflação e com uma taxa real muito elevada, considerando que o normal no Brasil seria um juro real de 6% ao ano, ou 4% ao ano quando as coisas vão bem, mas quase 8% como hoje não é normal”, diz. Ele prefere papéis com prazos até sete anos, pois acima disso o ganho não é tão grande para compensar a volatilidade maior dos papéis mais longos.
Para Gardiman há oportunidade também em papéis de empresas com isenção de imposto, mas de companhias sólidas, líderes de mercado e em prazos de 3 a 5 anos. Na falta delas, os papéis do Tesouro Direto também são atrativos. Sobre a bolsa, ele diz que as ações sempre sobem quando o juro cai, mas não dá para saber se o mercado já antecipou todo o ajuste. “Minha opinião é que boa parte do ajuste dos juros já foi, mas há outros fatores, como o estrangeiro buscando diversificação diante das incertezas com a economia americana”, diz.
Um forte apego ao CDI
Um dos desafios para quem vai alongar as aplicações é abrir mão dos juros atuais de 15% ao ano no curto prazo, explica Fernando Meibak, sócio da Sunrise Invest.
Hoje, uma aplicação no CDI ou em um título do Tesouro Selic rende 1,17% ao mês aproximadamente, enquanto um papel atrelado ao IPCA de dez anos, com juros reais de 7,5% e estimando uma inflação em torno de 4% ao ano, renderia cerca de 11,50% ao ano, o que equivale a 0,90% ao mês. “Tem cliente que tem postura de investimento de longo prazo, quer investir por dez anos, mas acaba desistindo porque sai perdendo para o CDI por um bom tempo e é o que ele vê no extrato dele todo mês”, afirma Meibak.
Mesmo assim, ele vê boas oportunidades de alongamento em papéis privados isentos de imposto de renda. O problema é a falta de oferta desses papéis no mercado hoje e a necessidade de o investidor escolher bem o emissor pelo risco de crédito, ainda mais para um prazo mais longo. “Os bancos também estão emitindo menos LCIs e LCAs, até pelo maior cuidado na concessão de crédito diante do impacto do juro alto na economia e na saúde das empresas”, diz.
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