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Estresse financeiro: como a falta ou a relação disfuncional com o dinheiro afeta a nossa saúde
Especialistas falam sobre os impactos emocionais do desequilíbrio econômico e dão dicas para melhorar essa relação
Quando o assunto é dinheiro, a maioria dos brasileiros prefere não entrar na conversa, mas, no fundo, reconhece que deveria falar mais sobre o tema. É o que aponta uma pesquisa realizada pelo Banco BV e o Instituto MindMiners, em 2022, que registrou como a maioria da população (54%) trata a vida financeira como um tabu. E o motivo, o próprio estudo busca explicar, é que o tópico é emocionalmente desconfortável para 61% das 1.100 pessoas ouvidas pelos pesquisadores, que associam dinheiro a sentimentos negativos.
Não é difícil encontrar, nas ruas, relatos que ecoam os achados do levantamento. Caso da porteira Solange Domingos, 46. “Quase sempre me sinto em dificuldade financeira”, admite, lembrando que o período mais agudo foi quando teve o segundo filho e acabou ficando desempregada. “De lá para cá, a gente vai se equilibrando”, reforça, sendo precisa ao escolher uma palavra que remete à necessidade constante de vigilância, já que qualquer deslize pode representar uma queda.
Nessa corda bamba, ela reconhece bem os obstáculos que surgem no caminho: “Você quer proporcionar o melhor para seus filhos, mas não tem condições e, consequentemente, vem a frustração, a tristeza… Eles falam que dinheiro não é tudo, mas traz quase tudo”, reflete, acrescentando acreditar que a sensação de impotência é piorada pela presença nas redes sociais. “Elas contribuem. É muita divulgação, muita publicidade, muita coisa. A gente fica querendo essa vida de ilusão, e gasta mais do que tem”, reflete.
Esse conjunto de sensações relatado por Solange, e tão familiar a outras tantas brasileiras e brasileiros, atende pelo nome de “estresse financeiro”, como explica a economista, psicóloga e planejadora financeira Maria Helena Manso. O conceito, detalha ela, nada mais é que uma resposta emocional e psicofisiológica resultante das preocupações ou dificuldades relacionadas à gestão de dinheiro. “Do ponto de vista psicológico, ele se manifesta como uma sensação crônica de ansiedade devido à incapacidade percebida de sustentar despesas básicas, pagar dívidas ou manter um estilo de vida desejado.
Maria Helena situa que o fenômeno é caracterizado, por exemplo, por uma sensação de preocupação constante, com pensamentos persistentes sobre dinheiro, sentimento de desamparo, com sensação de falta de controle sobre a vida financeira, sentimento de fracasso, com sensação de incapacidade. Além disso, a situação desencadeia problemas relacionados à ansiedade e dificuldades nos relacionamentos. “A tensão financeira pode causar atritos em relações interpessoais, principalmente conjugais”, observa.
O assistente de cozinha Caio César, 28, é mais um brasileiro a se reconhecer assombrado pelos efeitos do estresse financeiro. No caso dele, o período mais complicado foi durante a pandemia da Covid-19. “Pouco antes, minha mãe precisava de um cartão de crédito e eu emprestei o meu. Só que, pouco tempo depois, fiquei desempregado”, lembra. Sem ter como pagar a fatura, acabou ficando “no vermelho”. “Emocionalmente… Eu já tenho depressão, e ninguém quer ficar endividado… E percebi que os conflitos aumentam, o estresse aumenta e as relações dentro de casa ficam mais tensas”, examina.
Aliás, como aponta o desabafo de Caio, o estresse financeiro é um fator de risco para várias outras questões psicológicas e pode exacerbar condições preexistentes, ressalta Maria Helena. Ela cita, por exemplo, implicações em quadros de depressão e distúrbios de ansiedade, incluindo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em situações extremas. E há, ainda, pessoas que podem desenvolver comportamentos disfuncionais na tentativa de aliviar o estresse, por exemplo, desenvolvendo compulsão por jogos, com a ilusão que poderá ganhar o dinheiro no jogo para resolver seus problemas de dívidas.
Grupos de risco
A psicóloga e planejadora financeira Maria Helena Manso reconhece que existem grupos sociais mais vulneráveis ao estresse financeiro, caso dos desempregados e subempregados, que lida com a falta de segurança financeira; das famílias de baixa renda, que apresentam dificuldades em atender às necessidades básicas; dos estudantes universitários, uma vez que dívidas estudantis, custos de vida, e transição para a independência financeira são desencadeadores comuns do problema; dos idosos com poupança baixa, já que a incapacidade de ganhar renda adicional agrava essa vulnerabilidade.
Outros grupos mais suscetíveis ao distúrbio, lembra Maria Helena, são os funcionários públicos, cuja estabilidade profissional leva a ilusão de uma estabilidade financeira, junto a isso o acesso ao crédito fácil, favorecendo o endividamento e, por consequência, a ocorrência do estresse financeiro. Por fim, ela cita as pessoas com transtornos como bipolaridade e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): “É um público que tem prejuízo na função executiva, sendo, por isso, mais propenso a lidar com o dinheiro de uma forma mais impulsiva”.
Dicas
Para evitar o estresse financeiro, a economista Cecília Perini, e líder regional da XP Investimentos em Minas Gerais, enumera diversas estratégias que podem ser adotadas levando a uma melhora na relação com o dinheiro. Uma delas passa pelo desenvolvimento de um planejamento financeiro detalhado, criando reserva de emergência e buscando educação financeira. “Ter o apoio de um consultor de investimentos na estruturação desse planejamento pode ser fundamental”, avalia.
A especialista é enfática sobre a necessidade de ação: “Você precisa agir! Não espere ter um incremento de renda ou zerar as dívidas para começar. Comece agora mesmo, dentro da sua realidade. Registre todos os seus ganhos e gastos mensais de forma detalhada, se lembrando de observar os parcelamentos e gastos fixos anuais, como impostos, viagens, etc. O uso de algumas planilhas ou do tradicional caderninho vai te ajudar”. O passo seguinte, diz, é estabelecer metas de investimento – “isso vai te ajudar a controlar os gastos, sem perder o foco dos seus objetivos”.
Se a pessoa já se considerada sob estresse financeiro em razão de dívidas e compromissos, a melhor saída será a negociação com a instituição financeira para reduzir juros e parcelas, de modo a incluir no seu orçamento mensal. “Priorizar a renegociação dos contratos com taxas de juros mais altas é o caminho mais indicado”, sugere.
Cecília prossegue lembrando que todas as pessoas estão sujeitas a enfrentar situações inesperadas, que elevam o estresse financeiro e podem desequilibrar outros aspectos da vida. “Por isso, é importante investir em uma reserva de emergência, que será uma aliada indispensável para garantir a estabilidade financeira no curto prazo. Ter guardado de três a seis meses de despesas básicas em investimentos de baixo risco e alta liquidez, como o CDBs, Tesouro Selic ou Fundos de Investimentos que acompanham o CDI, pode fazer toda a diferença em momentos de crise”, aponta.
“Se ainda não começou a constituir essa reserva, a sugestão é guardar, mensalmente, uma parte dos seus rendimentos, direcionando 70% para gastos e despesas e 30% para uma reserva financeira. Parece desafiador, mas com foco e disciplina você chega lá”, estimula, acrescentando que, se não for possível começar nesse patamar, pode-se começar esse processo com percentuais menores, como de 10%, e ir crescendo a meta, conforme equilibra as contas.
Mais alternativas
A pedido da reportagem, Maria Helena Manso também apontou medidas válidas para o enfrentamento do estresse financeiro, visando a construção de uma relação mais saudável com o dinheiro. Veja:
- Práticas de mindfulness: colocar atenção na origem de seus pensamentos sobre dinheiro, evitando decisões emocionais ou impulsivas;
- Definição clara de objetivos: estabelecer metas financeiras realistas a curto e longo prazo;
- Orçamentação realista: criar e seguir um orçamento que reflete sua realidade financeira;
- Educação contínua: manter-se informado sobre práticas financeiras, tipos de investimento e economia básica;
- Resiliência e flexibilidade: estar preparado para imprevistos e ajustar planos conforme necessário sem perder de vista seus objetivos gerais;
- Autorreflexão regular: revisar crenças e sentimentos atuais sobre dinheiro;
- Conversas sobre dinheiro: talvez de tudo o mais importante. O assunto dinheiro muitas vezes é evitado nas famílias, e quando aparece, frequentemente, gera conflitos. Precisamos desenvolver o hábito de falar sobre dinheiro de uma forma leve e saudável.
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