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Downsizing: quando a empresa precisa dar um passo para trás
Demitir pessoas e reestruturar a empresa não é tarefa fácil, mas é uma medida necessária em momentos difíceis.
Estamos vivendo um período de crise econômica. A situação desfavorável do mercado reduz a demanda por serviços e produtos, leva as empresas a demitir funcionários e tentar cortar custos de qualquer maneira. Passar por momentos assim não é fácil, mas há um aspecto que nem todo mundo enxerga: depois de anos de crescimento, a empresa pode ter ficado mais inchada ou ineficiente do que deveria. Ou pode estar dimensionada para um momento do país que ficou para trás.
É um bom momento para cada gestor ou dono da empresa olhar para a trajetória de negócio. O que aconteceu nos últimos anos? Quase todos vão enxergar o seguinte: inicialmente, as empresas faziam muito com pouca gente. Com a bonança no Brasil, algumas empresas ficaram inchadas e a performance de parte dos funcionários passou a ser proporcionalmente menor. Como acontece em nossas vidas pessoais, é natural que a estabilidade leve a uma acomodação que resulte em um acúmulo de gordura. No caso das empresas, pode ser um número de funcionários maior do que o necessário e custos altos.
Feita esse reflexão, ficará mais fácil estruturar um processo de downsizing, enxergando onde estão as sobras na empresa e quais são as mudanças de estruturas possíveis. Tivemos uma espiral de crescimento onde as empresas contrataram mais, compraram máquinas, aumentaram salários, melhoraram os benefícios. Em momento de dificuldade, é preciso desacelerar esse processo e redimensionar o negócio.
- Cortar não é fácil para ninguém
Além do processo de acomodação, existe uma outra coisa complicada chamada proteção. É difícil mandar funcionários embora ou abrir mão de uma linha de produtos ou serviços quando a empresa já está acostumada a trabalhar com eles. Ninguém gosta de passar por uma reestruturação, seja o dono ou os colaboradores.
Na maioria das empresas, os cortes acontecem quando já se chegou a uma situação limite. Aí, a liderança não sabe nem por onde começar e acaba tomando decisões atropeladas. E, de fato, são decisões difíceis de tomar. O dono da empresa ou o gestor precisam ter coragem de dizer que, de três fábricas, passará a operar com apenas uma, ou de 100 funcionários precisará demitir metade, porque o limite para sua operação é de 50 pessoas.
- Redimensione a empresa antes que sua dívida fuja do controle
Um sintoma muito comum encontrado em empresas que chegam a uma situação limite é o alto nível de endividamento. Parte das empresas que teve queda de faturamento, ao invés de fazer uma reestruturação, continuou funcionando como antes e acabou deixando a máquina sangrar demais. Não deixe o problema virar uma bola de neve.
- Procure um bom abrigo para a tempestade
Imagine um negócio que teve queda de 30% em seu faturamento. A expectativa do empreendedor é que daqui a dois anos a situação do país estará melhor. O ideal é trazer o exército para a base e ganhar fôlego para crescer no futuro. O que isso significa, na prática? Não é apenas trabalhar com corte de pessoas, mas também de filiais ou linhas de produto. A redução pode acontecer em várias frentes.
Quando você está no meio de uma tempestade, é natural que procure o abrigo mais sólido para se esconder. Com a empresa acontece o mesmo. Se um negócio conta com seis linhas de produtos, quando a situação financeira não vai bem, é preciso avaliar quais são as mais rentáveis e desapegar das demais. Pode também acontecer de o produto mais rentável do seu negócio ser responsável por 2% do faturamento. Enquanto isso, há outro produto menos rentável mas que corresponde a 50%. Preserve o seu caixa o quanto puder.
- Terceirize algumas funções
Uma alternativa que considero interessante para diminuir os custos da empresa é estimular a terceirização de alguns setores. Pela minha experiência, essa iniciativa pode ser boa para a empresa e para o funcionário que se torna prestador de serviço. Imagine o setor de contabilidade.
Se sua equipe de contabilidade fosse uma microempresa, poderia prestar serviço para você e para outras empresas: teriam a possibilidade de aumentar seus ganhos. Para a empresa que contrata, o custo é menor do que ter funcionários. Além disso, essa outra relação tende a estimular a produtividade. Sendo um microempresário, a pessoa se dedica mais, porque seu ganho é proporcional ao seu trabalho. Na empresa, com um salário estável, a tendência é a acomodação.
Eu já fiz testes nesse sentido – a diferença é gritante. O microempresário produz duas vezes mais que o funcionário. O primeiro ganha pelo volume de trabalho que entrega, enquanto o funcionário terá o salário no final do mês de qualquer maneira, e pode acabar se acomodando em um nível de baixa produtividade.
Um passo para trás, dois para a frente
O reequilíbrio da empresa é fundamental para aguentar a briga quando o crescimento voltar. Essa lógica vale para empresas de qualquer tamanho, de um restaurante a um negócio com presença Internacional. Dar um passo para trás pode, no médio prazo, fazer sua empresa dar dois para a frente.
Downsizing não é só para momentos de crise
Quem nunca ouviu a velha máxima: por que mexer em time que está ganhando? Pois a maioria não mexe mesmo, o que para mim é uma pena. De fato, contextos favoráveis dificultam mudanças. Promover cortes em uma empresa que está em boa situação provavelmente vai deixar funcionários incrédulos. São poucas as empresas que conseguem diminuir ineficiências quando os ventos são favoráveis, evitando que os problemas se acumulem. Mas gostaria que mais empreendedores tivessem em mente que downsizing não é só tarefa de empresas que estão em uma situação difícil financeiramente. Toda companhia precisa estar sempre alerta às oportunidades de reduzir gorduras.
Tudo isso é muito mais fácil de falar do que fazer. Situações como essas são extremamente desgastantes do ponto de vista psicológico. E as decisões mais difíceis que empreendedores tomam são, inevitavelmente, solitárias. Para fazer uma mudança, qualquer um precisa de uma dose de sangue frio e de muita confiança na decisão tomada. Claro que é possível ter um coach ou conselheiro que ajude nesse processo, que ouça as aflições e dê orientações. Mas no final do dia, é preciso ter coragem de encarar uma situação desafiadora para garantir a perenidade do negócio. É como tomar um remédio amargo: ninguém gosta, mas dependendo da doença, não há como fugir.
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