O que define uma trajetória bem-sucedida? Dinheiro, reconhecimento profissional, capacidade de construir um negócio ou a consciência sobre o impacto das próprias escolhas? Três lançamentos recentes partem dessa questão para examinar o significado da prosperidade em uma sociedade marcada pela pressão por resultados rápidos e pela exposição permanente nas redes sociais.
Em O Velho Sábio e a Verdadeira Riqueza, Manassés Carloto recorre à fábula. Marcelo Neri conduz o leitor por uma jornada metafísica em O Tabuleiro da Existência. Já Alessandro Barbosa Lima reconstrói uma experiência empresarial concreta em O buzz nosso de cada dia. Embora adotem formatos e linguagens diferentes, os livros convergem ao sugerir que resultados materiais, quando dissociados de propósito, equilíbrio e responsabilidade, não são suficientes para sustentar uma trajetória.
A discussão aparece de forma mais direta na história de Mateus, protagonista de O Velho Sábio e a Verdadeira Riqueza. Ele deixa a aldeia natal com dez moedas de ouro e o objetivo de enriquecer a qualquer custo. Em busca de retorno imediato, constrói uma pousada de luxo sobre um terreno instável. O empreendimento atrai hóspedes e prospera rapidamente, mas é destruído por uma tempestade.
A ruína do negócio funciona como ponto de inflexão. Diante do fracasso, Mateus precisa reconhecer não apenas os erros cometidos na construção, mas também a fragilidade de suas referências pessoais. O encontro com o Velho Sábio o leva a rever o conceito de sucesso e a considerar o valor da comunidade, das relações e do legado.
Empresário e escritor, Manassés Carloto estrutura o romance a partir de elementos tradicionais das parábolas, como a partida, a ambição, a queda, a presença de um mentor e a possibilidade de redenção. A prosperidade deixa de ser tratada como simples acúmulo de bens e passa a envolver caráter, responsabilidade social e impacto sobre outras pessoas.
Uma crise semelhante move O Tabuleiro da Existência, mas o protagonista criado por Marcelo Neri começa sua jornada em uma posição diferente. Dante Valente já alcançou aquilo que Mateus inicialmente procura. É um empresário rico, reconhecido e habilidoso nos negócios. Apesar das conquistas, vive uma profunda insatisfação.
Depois de morrer em um acidente aéreo, Dante é transportado para um espaço metafísico, descrito como um tabuleiro suspenso no infinito. Nesse ambiente, precisa enfrentar desafios relacionados ao passado, aos medos e aos padrões de comportamento que orientaram sua vida. A travessia determinará seu destino espiritual.
O protagonista é acompanhado por três figuras arquetípicas: o filósofo, o terapeuta e o espiritualista. Cada uma representa uma dimensão do processo de autoconhecimento. Enquanto o filósofo questiona as aparências, o terapeuta investiga as feridas e os comportamentos recorrentes, e o espiritualista estabelece uma ligação entre a experiência individual e uma dimensão transcendental.
A presença dessas três figuras está relacionada à importância atribuída por Neri à tríade como símbolo de síntese e transformação. O autor reúne referências da filosofia, da psicologia, da neurociência e da espiritualidade para discutir como o desempenho profissional pode encobrir crises pessoais difíceis de identificar.
Assim como Mateus, Dante precisa rever a primazia do “ter” sobre o “ser”. A diferença está no ponto de partida. No primeiro livro, o personagem perde o patrimônio recém-construído e percebe a fragilidade de uma prosperidade sem alicerces. No segundo, o empresário já acumulou dinheiro e prestígio, mas descobre que essas conquistas não eliminaram o vazio pessoal.
A experiência de Marcelo Neri como executivo do setor marítimo e portuário também atravessa a obra. O romance dialoga com sua própria trajetória profissional e com o momento em que passou a buscar respostas fora do universo corporativo. A ficção funciona, portanto, como uma representação simbólica de crises vividas por profissionais que alcançam posições de liderança, mas deixam de encontrar sentido no desempenho cotidiano.
O Buzz nosso de cada dia, de Alessandro Barbosa Lima, desloca a discussão para o terreno da não ficção. O livro narra a criação da Elife e, posteriormente, da plataforma Buzzmonitor, dedicadas ao monitoramento e à análise das opiniões publicadas nas redes sociais.
Lima conta como ele e o amigo de infância Jairson Vitorino, dois pernambucanos recém-chegados a São Paulo, começaram o negócio em 2004, sem investidores externos. Os primeiros relatórios eram produzidos manualmente em planilhas. Duas décadas depois, o grupo emprega mais de mil pessoas na América Latina e, segundo informações divulgadas pela empresa, registra faturamento anual superior a R$ 120 milhões.
Organizada em onze lições, a obra combina autobiografia empresarial, casos de mercado e reflexões sobre comunicação digital. O autor mostra como comentários, reclamações e elogios publicados na internet passaram a ser analisados pelas empresas e transformados em informações estratégicas para áreas como marketing, atendimento ao consumidor e gestão de crises.
À primeira vista, o livro de Lima parece seguir uma direção diferente das narrativas de Carloto (O Velho Sábio e a Verdadeira Riqueza, Manassés Carloto) e Neri (O Tabuleiro da Existência, Marcelo Neri). Enquanto as duas obras de ficção questionam os limites da riqueza material, O buzz nosso de cada dia descreve a construção efetiva de uma empresa milionária. O paralelo surge na forma como o empreendedorismo é apresentado.
A trajetória não se apoia em uma solução instantânea. É construída ao longo de 20 anos, a partir da observação das mudanças no comportamento dos consumidores, da adaptação tecnológica e do aprendizado provocado por erros e crises. Nesse sentido, o livro se contrapõe à mesma lógica do enriquecimento rápido criticada nas jornadas de Mateus e Dante.
A obra também amplia a discussão sobre responsabilidade. Ao abordar inteligência artificial, polarização, notícias falsas, saúde mental e a mistura entre informação, entretenimento e opinião, Lima reconhece que a indústria criada a partir da escuta das redes sociais produz oportunidades econômicas, mas também impõe dilemas às empresas, aos profissionais de comunicação e à sociedade.
Os três livros chegam, assim, a uma conclusão semelhante por caminhos distintos. Carloto mostra a queda de um jovem que confunde riqueza com patrimônio. Neri acompanha um empresário que conquistou reconhecimento, mas perdeu o contato com o próprio propósito. Lima relata a construção de um negócio real e aponta que prosperar exige leitura de contexto, capacidade de ouvir e disposição para lidar com as consequências da inovação.
Em comum, as obras rejeitam a ideia de sucesso como um ponto de chegada. A prosperidade aparece como processo, sustentado por escolhas, relações, aprendizado e responsabilidade. Mais do que ensinar como acumular dinheiro ou alcançar posições de poder, os autores propõem uma pergunta anterior: o que permanece quando os resultados externos deixam de ser suficientes?
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