A forma como os consumidores descobrem produtos na internet começa a mudar. Em vez de recorrer apenas aos mecanismos de busca para comparar opções e escolher uma oferta, parte deles já utiliza ferramentas de inteligência artificial (IA) para pedir recomendações, avaliar produtos e tomar decisões de compra. A mudança também altera a estratégia das empresas. Dados da Adobe Analytics referentes a maio de 2026 mostram que usuários encaminhados por plataformas de inteligência artificial para sites de varejo geraram, em média, 53% mais receita por visita do que aqueles vindos de outras fontes.
O movimento já aparece entre grandes empresas do varejo internacional. Na França, o Carrefour passou a integrar produtos e serviços ao ChatGPT, permitindo que consumidores pesquisem itens, montem carrinhos e iniciem a jornada de compra pela plataforma.
Dados da Similarweb indicam ainda que, em agosto de 2025, cerca de 20% dos acessos ao Walmart.com originados por links externos vieram do ChatGPT. Em junho deste ano, a Visa também anunciou uma parceria com a OpenAI para permitir que agentes de inteligência artificial realizem compras em nome dos consumidores, de acordo com parâmetros definidos pelos próprios usuários.
Para o CEO da Dolado, Guilherme Freire, empresa de soluções para marcas em marketplaces, a transformação guarda semelhanças com a mudança provocada pela expansão dos mecanismos de busca. “Durante muitos anos, a disputa era para aparecer entre os primeiros resultados das buscas. Agora, as empresas começam a perceber que precisam ser compreendidas pelas inteligências artificiais. Em muitos casos, o consumidor não recebe mais uma lista de links para escolher. Ele faz uma pergunta e recebe poucas recomendações prontas”, diz.
Nesse cenário, a qualidade das informações disponíveis sobre produtos ganha importância. Catálogos incompletos, descrições genéricas, atributos mal preenchidos e dados inconsistentes podem dificultar a interpretação dos produtos pelos sistemas de inteligência artificial e reduzir as possibilidades de recomendação. “Não basta mais ter um bom produto. É preciso explicar de forma clara o que ele faz, para quem ele serve, quais são seus diferenciais e manter essas informações consistentes em todos os canais. A inteligência artificial depende desse contexto para recomendar uma marca”, observa.
A mudança também altera a lógica de atração de consumidores. Segundo Freire, o objetivo deixa de ser apenas levar o usuário até um site e passa a incluir a organização das informações necessárias para responder às dúvidas antes mesmo do acesso a uma página de vendas.
As ferramentas de inteligência artificial trabalham de maneira diferente dos mecanismos tradicionais de busca. Em vez de apenas localizar páginas relacionadas a determinadas palavras-chave, elas tentam elaborar respostas a partir de diferentes informações sobre marcas e produtos.
Segundo o executivo, nesse processo entram fatores como a consistência dos dados, a reputação, as avaliações de consumidores, a disponibilidade e o prazo de entrega.“Durante muitos anos, as empresas aprenderam a otimizar páginas para serem encontradas pelos mecanismos de busca. Agora, elas precisam estruturar informações para serem compreendidas pela inteligência artificial. A diferença é que a IA não procura apenas palavras-chave. Ela interpreta contexto, cruza diferentes fontes de informação e tenta identificar quais produtos realmente respondem à necessidade do consumidor. Isso exige uma organização muito mais profunda dos dados da empresa”, diz.
Para Freire, a transformação ainda está em estágio inicial, mas tende a avançar conforme os consumidores incorporam ferramentas de inteligência artificial à rotina de compras. “Quem vende pela internet precisa entender que a forma como o consumidor descobre produtos está mudando. As empresas que prepararem seus catálogos para essa nova realidade terão mais chances de serem encontradas e recomendadas. Quem esperar essa transformação se consolidar pode descobrir que já ficou para trás”, frisa.
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| Atualizado em: 20/09/2026 19:00 | ||
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