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Muito além da Selic: juros, gestão e o abismo da inadimplência

Explore como a Selic pode ser um obstáculo para o crescimento de pequenas e médias empresas no Brasil e suas soluções

Ultimamente, discutir o acesso e o custo do créodito para pequenas e médias empresas no Brasil tem significado concentrar-se na taxa básica de juros, Selic, e em seus efeitos evidentes sobre o endividamento. No entanto, uma análise mais profunda indica rapidamente que esse fator é apenas mais um obstáculo na já frágil situação histórica dos pequenos negócios brasileiros.

O próprio motivo pelo qual as pequenas empresas se endividam por aqui já é um despropósito: tomar crédito para cobrir furos de caixa. A essência das operações de crédito PJ deveria ser o financiamento do aumento das vendas ou o investimento na eficiência produtiva. Em ambos os casos, isso geraria efeitos de médio prazo na lucratividade e no aperfeiçoamento da capacidade de pagamento, fruto da maior rentabilidade financiada. Nesse cenário ideal, a adimplência seria uma consequência natural, já que todos os participantes da cadeia se beneficiariam e a renovação do ciclo passaria a ser óbvia.

Todavia, fatores como a falta de preparo do empreendedor, dificuldades crônicas na formação do preço de venda, baixíssima eficiência produtiva, oneração da mão de obra e infraestrutura precária fazem os desafios brasileiros repousarem em estágios muito mais imaturos do que o simples acesso ao crédito para modernização. Dessa forma, o empréstimo passa a financiar uma espécie de continuidade a qualquer custo. E, se é ‘a qualquer custo’, não importa quanto custe o crédito; o que importa é obtê-lo para evitar o fechamento das portas.

Tal cenário não é novidade, ou não deveria ser. A evolução do endividamento das empresas brasileiras mostra, desde 2016, um aumento consistente. Os únicos anos em que o número de empresas com dívidas vencidas não cresceu foram 2020 e 2021, justamente no centro da crise da COVID-19. Naquele momento, o financiamento governamental — rotulado de ‘estímulo ao crescimento’ — apenas tapou o sol com a peneira. Postergou-se o inevitável, despejando dinheiro na economia real para legitimar o despropósito do crédito no Brasil. Investir, crescer e lucrar não estão em pauta; o que vale é conseguir dinheiro, não importa a origem e a que custo, inclusive social, para cobrir o furo de caixa.

Quando comparamos a curva da inadimplência com a variação da taxa básica de juros na última década, não restam dúvidas sobre a desvinculação dos dois indicadores. Ainda que os juros oscilem, a curva da inadimplência das empresas mostra-se irremediavelmente ascendente.

Torna-se evidente, portanto, que atribuir à Selic a responsabilidade central pela deterioração da solvência e pelos recordes de inadimplência corporativa é uma simplificação excessiva. O buraco é mais embaixo: Existem problemas estruturais ainda mais crônicos que precedem a questão dos juros.

Há uma grave inversão de valores no principal indicador sobre o alcance e o propósito do crédito na maioria das análises atuais. Credores, agentes de fomento e Estado divulgam apenas números de concessões e total de empresas beneficiadas, o que representa um desvio importante. Dar crédito para quem não tem capacidade de pagamento é agravar a situação do indivíduo e das empresas, empurrando a conta da inadimplência para os bons pagadores. O que realmente vale é quanto do montante concedido retornou aos cofres dos credores. Esse é, possivelmente, o melhor indicador de que o crédito não ‘matou’ o tomador, mas o ajudou de tal forma que ele conseguiu honrar sua obrigação.

Não é o aumento de linhas, novas modalidades de crédito nem a redução substancial da taxa de juros, sozinhas, que trarão ou restituirão a capacidade de pagamento às empresas brasileiras. Resumir o debate da inadimplência e do custo do crédito à Selic esconde questões muito mais sensíveis sobre educação, crescimento econômico e produtividade. Enquanto esses temas não chegarem à ordem do dia entre empreendedores, credores e governo, restará aos analistas projetar, sem a menor precisão, onde o problema da inadimplência vai parar.

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Atualizado em: 23/09/2026 15:50

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