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IA e empregos no Brasil

É preciso abandonar a ideia simplista de que a tecnologia elimina empregos e olhar com mais atenção para as tarefas de cada ocupação

O impacto das novas tecnologias sobre o mercado de trabalho sempre foi tema de debate entre nós economistas. Mas a chegada da Inteligência Artificial (IA) generativa deu a essa discussão um toque especial. Diferentemente de ondas anteriores, como o computador pessoal ou a internet, a velocidade de difusão da IA é muito maior. Nessa discussão, é preciso abandonar a ideia simplista de que a tecnologia elimina empregos e olhar com mais atenção para as tarefas que compõem cada ocupação.

Historicamente, a tecnologia tende a automatizar atividades repetitivas e, ao mesmo tempo, criar demandas. A novidade da IA generativa é sua capacidade de executar tarefas cognitivas, como analisar textos, resumir informações e apoiar decisões baseadas em padrões. No Brasil, pesquisadores da FGV estimam que cerca de 30% da população ocupada, algo em torno de 29,8 milhões de pessoas, já esteja exposta a essa tecnologia.
Ademais, essa exposição cresce com o nível de escolaridade. Enquanto apenas cerca de 10% dos trabalhadores sem instrução estão expostos, o percentual passa de 43% entre aqueles com ensino superior completo.

Mas estar exposto à IA não significa, automaticamente, estar condenado ao desemprego. O ponto está em distinguir substituição de complementaridade. Sob o viés de substituição, aproximadamente 20% da população ocupada brasileira se encontra nessa zona de risco, compondo trabalhadores muito expostos à IA, mas com baixa complementaridade em relação a ela. Nesse caso, a tecnologia funciona como concorrente. Funções administrativas, processamento de dados, tarefas analíticas repetitivas e certos tipos de atendimento ao cliente estão entre as mais vulneráveis. Aqui, o risco é a automação, com o software assumindo funções antes humanas, comprimindo salários e reduzindo a participação do trabalho na renda.

Do outro lado está o cenário da complementaridade, que envolve pouco mais de 20% dos trabalhadores. Para esse grupo, a IA não é uma rival, mas uma ferramenta. São ocupações que usam intensamente a tecnologia, mas dependem de habilidades que a IA ainda não domina: julgamento complexo, criatividade contextual, empatia, interação humana e negociação. Nesses casos, a IA pode reduzir o tempo gasto em tarefas rotineiras e elevar a qualidade do trabalho, abrindo espaço para ganhos de produtividade e, potencialmente,
salários maiores. Um efeito interessante é que a tecnologia tende a ajudar mais os profissionais menos experientes, ao encurtar a curva de aprendizado e difundir boas práticas que antes ficavam restritas aos mais seniores.

Essa discussão ainda envolve elementos que não cabem neste artigo. Um deles é o impacto sobre a desigualdade regional: áreas com melhor infraestrutura digital e capital humano têm mais chances de aproveitar os ganhos da complementaridade, enquanto outras podem sofrer principalmente com a substituição. Mas esse é tema para outra ocasião.

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Atualizado em: 23/09/2026 22:47

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